Por Rogerio Rebouças
Na Europa Ocidental, só quatro países constroem praticamente todo tipo de navio de guerra: porta-aviões ou porta-helicópteros, grandes navios anfíbios, escoltas e submarinos. São Reino Unido, França, Itália e Espanha, e só os dois primeiros constroem submarinos nucleares. A Alemanha, que mais entregou navios na região em dez anos, fica nas fragatas e nos submarinos convencionais. É o que mostra o estudo da Euronaval sobre a construção naval de defesa em 2026.
O estudo La construction navale de défense dans le monde 2026 (A construção naval de defesa no mundo 2026), da Flottes de Combat e do GICAN, o grupo das indústrias navais francesas, foi recebido pela Conexão Naval depois da conferência de imprensa da Euronaval, em 20 de outubro. Esta é a terceira matéria sobre ele, depois da corrida entre China e Estados Unidos e das marinhas do Canadá e da América Latina. Os números de frota valem para 1º de janeiro de 2026, sem guardas costeiras nem navios auxiliares, e contam todos os navios ainda não desincorporados, inclusive os parados temporariamente ou em manutenção prolongada. Por isso, a tonelagem diz pouco sobre quantos navios estão de fato prontos para operar.
Somadas, as frotas europeias superam a russa numa proporção de cerca de 4 para 1, exceto no domínio submarino, mas ficam em torno de 1 para 3 diante da americana. O estudo faz uma crítica que vale para todas: as principais marinhas da Europa foram pensadas para projetar poder num ambiente pouco contestado, e suas escoltas, em geral, não levam mísseis para atacar alvos em terra.
Reino Unido e França: as duas potências nucleares
A Royal Navy é a primeira da Europa em tonelagem, com 41 navios e 324.185 t. A Marine nationale vem em segundo, com 66 navios e 259.801 t. Cada uma tem quatro submarinos nucleares lançadores de mísseis balísticos (SNLE), apoiados por seis ou sete submarinos nucleares de ataque (SNA), e as duas reúnem os três maiores porta-aviões do continente: os britânicos Queen Elizabeth e Prince of Wales e o francês Charles de Gaulle. A França soma ainda três porta-helicópteros anfíbios da classe Mistral. O estudo aponta fraquezas comuns: em alguns domínios, o armamento fica aquém das exigências do combate de alta intensidade, e os estoques de munição e a capacidade de carga são inferiores aos de navios equivalentes chineses e americanos.
A Royal Navy tem mais tonelagem que a francesa, mas muito menos navios prontos para operar. Faltam tripulantes e as manutenções se arrastam por anos. Em junho de 2026, segundo a Maritime Executive, nenhum dos cinco submarinos nucleares de ataque Astute em serviço estava disponível para missão, só dois dos seis destróieres Type 45 estavam operacionais e as fragatas Type 23 em condições de navegar eram apenas quatro.
Os programas mostram a amplitude industrial dos dois países. No Reino Unido, a BAE Systems constrói os quatro SNLE Dreadnought, de 17.200 t, com entregas de 2029 a 2035, e termina a série de sete SNA Astute (seis entregues). Com Estados Unidos e Austrália, desenvolve ainda o submarino nuclear de ataque SSN-AUKUS, que vai suceder os Astute e equipar a marinha australiana, com cinco unidades; estaleiros e prazos, segundo o estudo, ainda são incertos. Na superfície, vêm oito fragatas Type 26 da classe City, de 5.400 t, entre 2027 e 2036, e cinco fragatas Type 31 da classe Inspiration, de 5.700 t, entre 2027 e 2031. Na França, a Naval Group e os Chantiers de l’Atlantique vão construir o porta-aviões nuclear de nova geração France Libre, de 78.000 t, previsto para 2038. A Naval Group prepara os SNLE de terceira geração da classe L’Invincible, de 15.000 t, a partir de 2036, conclui os seis SNA Suffren (quatro entregues) e constrói cinco fragatas de defesa e intervenção (FDI) Amiral Ronarc’h, de 4.460 t, até 2032.

A França é também a mais exportadora das duas. A mesma FDI foi vendida à Grécia (quatro, duas já entregues) e à Suécia (quatro, de 2031 a 2034), e a Holanda escolheu o projeto Blacksword Barracuda para seus quatro novos submarinos convencionais Orka, de 3.300 t. Em dez anos, de 2016 a 2025, os estaleiros franceses entregaram 53 navios militares acima de 200 t, avaliados em 18,2 bilhões de dólares. Os britânicos entregaram 13, mas de alto valor unitário: 15,3 bilhões de dólares. Há uma lacuna britânica: o Reino Unido não constrói submarinos convencionais desde a classe Upholder, dos anos 1990, vendida depois ao Canadá, onde virou a classe Victoria.

Itália e Espanha: de tudo, menos o nuclear
A Marina Militare tem 47 navios e 170.289 t. Opera dois porta-aeronaves, o Cavour e o Trieste, 17 grandes escoltas e oito submarinos convencionais. Em 2024-2025 recebeu o Trieste e três fragatas, duas delas para repor as que foram exportadas para o Egito. A carteira da Fincantieri é a mais variada da Europa depois da francesa: dois destróieres DDX com capacidade antimíssil balístico, de 11.000 t, a partir de 2031; duas fragatas FREMM Evo, de 6.500 t, e dois patrulhas polivalentes PPA Evo, de 5.000 t, em 2029-2030; três grandes navios anfíbios LXD, de 16.500 t; e quatro mais dois submarinos U212 NFS, de 1.700 a 2.000 t, entre 2029 e 2033, derivados do projeto alemão 212. O estudo registra ainda um porta-aviões nuclear em projeto, com entrega depois de 2040. Em valor, a Itália é a maior construtora naval militar da Europa Ocidental na década: 36 navios, avaliados em 22,5 bilhões de dólares.
A Armada espanhola tem 37 navios e 110.573 t, com o porta-aeronaves Juan Carlos I e 11 grandes escoltas, mas só dois submarinos, por causa do atraso do programa S-80. A Navantia entrega quatro submarinos Isaac Peral, de projeto espanhol e 2.700 t, entre 2023 e 2029. Os dois primeiros chegaram sem o sistema de propulsão independente do ar (AIP), que será instalado depois. Na superfície, constrói cinco fragatas F-110 da classe Bonifaz, de 6.100 t, com sistema Aegis, entre 2027 e 2031. O projeto do Juan Carlos I foi exportado para a Austrália e a Turquia, e o das fragatas F-100, para a Austrália e a Noruega. Em dez anos, os estaleiros espanhóis entregaram 18 navios, avaliados em 4,6 bilhões de dólares.
Alemanha: fragatas e submarinos convencionais
A Deutsche Marine tem 35 navios e 74.360 t: seis submarinos U-212A, três navios antiaéreos e oito fragatas pesadas. O estudo diz que ela pode, “teoricamente”, apoiar uma coalizão, e cita as mesmas dificuldades de recrutamento da Royal Navy. A indústria alemã não constrói porta-aviões, grandes navios anfíbios nem submarinos nucleares, e concentra-se nas escoltas e nos submarinos convencionais. A TKMS vai construir oito fragatas MEKO A-200, de 4.000 t, a partir de 2029, em substituição ao programa F126, liderado pela holandesa Damen e depois pela NVL, da Rheinmetall, e cancelado em 2026; e seis submarinos 212CD, de 2.500 t, entre 2029 e 2037, em parceria com a Noruega. É o mesmo submarino que o Canadá escolheu em 2026. O estudo prevê ainda oito fragatas de defesa aérea F127, de 10.000 t, a partir de 2032, mas o projeto ainda não saiu do papel.
Em compensação, a Alemanha é o país da Europa Ocidental que mais entregou navios em dez anos: 59 unidades, avaliadas em 14,8 bilhões de dólares, boa parte para exportação. É também a parceira do Brasil nas fragatas Tamandaré, da mesma família MEKO, na versão menor A100, construídas em Itajaí (SC) pelo estaleiro Oceana, da TKMS.
| País | Navios em 1º/1/2026 | Toneladas | Porta-aviões ou anfíbios grandes | Submarinos nucleares | Submarinos convencionais | Fragatas e destróieres | Entregas 2016-2025 (US$) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Reino Unido | 41 | 324.185 | Sim | Sim | Não* | Sim | 15,3 bi (13 navios) |
| França | 66 | 259.801 | Sim | Sim | Sim | Sim | 18,2 bi (53 navios) |
| Itália | 47 | 170.289 | Sim | Não | Sim | Sim | 22,5 bi (36 navios) |
| Espanha | 37 | 110.573 | Sim | Não | Sim | Sim | 4,6 bi (18 navios) |
| Alemanha | 35 | 74.360 | Não | Não | Sim | Sim | 14,8 bi (59 navios) |
* O Reino Unido não constrói submarinos convencionais desde a classe Upholder, dos anos 1990.
Análise: qual seria a parceira ideal para o Brasil?
Se o Brasil decidisse renovar a Esquadra de forma ampla, com escoltas, submarinos, navios anfíbios e aviação embarcada, a quem deveria recorrer? A resposta muda conforme o tipo de navio.
Escoltas leves e submarinos: parceiros já escolhidos. O Brasil já tem a TKMS nas fragatas Tamandaré (MEKO A100), construídas em Itajaí, e a França nos submarinos do PROSUB, em Itaguaí. A propulsão nuclear do Álvaro Alberto ficou fora da cooperação e é desenvolvida pelo próprio Brasil.
França: navio-aeródromo, anfíbios e apoio. É a candidata natural para o que a Marinha mais quer e hoje não tem: um navio-aeródromo CATOBAR, com catapulta e cabos de parada, como o Charles de Gaulle e o futuro France Libre. Poderia ser parceira também num porta-helicópteros anfíbio (PHA) do tipo Mistral e em navios de abastecimento. Neste último caso, a Fincantieri também entra na disputa: os novos navios de abastecimento franceses da classe Jacques Chevallier derivam do projeto italiano Vulcano.
Itália e Espanha: bons anfíbios, mas aviação STOVL. O Trieste italiano e o Juan Carlos I espanhol têm boa capacidade anfíbia, mas operam aviões de decolagem curta e pouso vertical (STOVL), como o F-35B. Isso fica fora do foco da Marinha do Brasil, que quer aviação CATOBAR. A Espanha tem a seu favor o histórico de exportação com construção local, na Austrália; contra, os atrasos do submarino S-80.
Fragatas pesadas: Reino Unido e Itália na frente. Para escoltas maiores, britânicos e italianos estão bem posicionados, com a Type 31, a FREMM Evo ou o PPA da classe Thaon di Revel. A Itália, aliás, disputou as Tamandaré em 2018 e perdeu para a TKMS. A França corre por fora com a FDI, que poderia vir numa versão alongada, a FDI XL. Pela estimativa da Conexão Naval, com cerca de 9 m e 500 t a mais, ela passaria de 4.500 para cerca de 5.000 t, o suficiente para as necessidades brasileiras.
Nossa avaliação: não existe uma parceira ideal única. O Brasil já tem a TKMS nas escoltas leves e a França nos submarinos. O passo seguinte seria a França no navio-aeródromo e nos anfíbios, e uma disputa entre britânicos, italianos e franceses pelas fragatas pesadas. O que falta não é parceiro. Falta, primeiro, orçamento: a PEC 55/2023, em tramitação no Senado, fixa um piso de 2% do PIB para a defesa. E falta um estaleiro nacional capaz de absorver encomendas desse porte. Hoje, as Tamandaré saem do estaleiro Oceana, controlado pela alemã TKMS, e os submarinos, da Itaguaí Construções Navais, sociedade com a francesa Naval Group. Quem sabe surge uma “Embraer naval”, uma empresa brasileira de construção naval de defesa com escala para os grandes e os pequenos programas, na lógica high/low de navios sofisticados ao lado de navios mais simples e numerosos. Com a PEC aprovada, encomendas regulares poderiam sustentar esse projeto e colocar a Marinha do Brasil num patamar semelhante ao das melhores marinhas europeias.
Fontes: Flottes de Combat e GICAN, La construction navale de défense dans le monde 2026 (A construção naval de defesa no mundo 2026), estudo para a Euronaval 2026, recebido pela Conexão Naval em 20/10/2026; Naval News, junho de 2026 (cancelamento da F126); Baird Maritime, 2018 (finalistas das Tamandaré); The Maritime Executive, junho de 2026 (disponibilidade da Royal Navy); Senado Federal (PEC 55/2023).
Colaborou Claudio Sardinha (Redação IA). Edição de imagens: Chatel Cherne (Redação IA).
* Infográfico de capa: gráfico do estudo da Flottes de Combat e do GICAN, com legendas traduzidas pela Conexão Naval. Fotos: Naval Group (FDI) e Ministério da Defesa da Austrália (maquete do SSN-AUKUS). Todo o material é de imprensa da Euronaval 2026.






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