Por Rogerio Rebouças

Com 51 navios de combate e 94.044 toneladas, a Marinha do Brasil é a maior das Américas fora os Estados Unidos, segundo o estudo da Euronaval sobre a construção naval de defesa em 2026. Fica à frente do Canadá (25 navios, 91.287 t) e do México (50 navios, 63.022 t). No ranking mundial de tonelagem, o Brasil é o 17º, logo acima do Canadá. A diferença deve crescer: entre 2026 e 2027, a Marinha recebe fragatas da classe Tamandaré, o navio-doca multipropósito Oiapoque, um navio-patrulha e o último submarino da classe Riachuelo.

O estudo La construction navale de défense dans le monde 2026 (A construção naval de defesa no mundo 2026) foi preparado para a Euronaval pela Flottes de Combat, referência francesa em ordens de batalha navais, e pelo GICAN, o grupo das indústrias navais francesas. A Conexão Naval recebeu o documento depois da conferência de imprensa do salão, em 20 de outubro, antes da divulgação geral, prevista para o dia 22. A primeira matéria sobre o estudo trata das marinhas do mundo e da corrida entre China e Estados Unidos. Esta trata do Canadá e da América Latina. Os números de frota valem para 1º de janeiro de 2026, sem guardas costeiras nem navios auxiliares.

Gráfico do estudo da Euronaval 2026 com a tonelagem das marinhas do Canadá e da América Latina por tipo de navio: Brasil 94 044 t, Canadá 91 287 t, México 63 022 t, Chile 52 355 t, Peru 48 024 t, Argentina 47 351 t, Colômbia 24 981 t, Venezuela 21 354 t e Equador 15 150 t
As nove maiores marinhas do Canadá e da América Latina por tonelagem, divididas por tipo de navio*. Recorte do gráfico do estudo, com legendas traduzidas pela Conexão Naval. Fonte: Flottes de Combat e GICAN, estudo para a Euronaval 2026.
* Navios de combate acima de 200 t em serviço em 1º de janeiro de 2026, sem guardas costeiras e auxiliares, incluindo navios temporariamente inativos ou em manutenção prolongada.

Brasil: quer olhar até a África, mas hoje vê a Amazônia Azul

Pela contagem do estudo, a Marinha do Brasil tinha em 1º de janeiro de 2026 um porta-helicópteros, cinco submarinos, oito grandes navios de combate, sete navios-patrulha oceânicos, 22 navios-patrulha costeiros, quatro navios de guerra de minas e quatro navios anfíbios. Em 2024 e 2025, entraram em serviço dois submarinos da classe Riachuelo, o Humaitá e o Tonelero. O porta-helicópteros é o NAM Atlântico (ex-HMS Ocean), que mantém a capacidade de projeção anfíbia e já opera integrado ao veículo de superfície não tripulado (VSNT) desenvolvido pelo CASNAV. Também na área de drones, o SUPPRESSOR 7, da EMGEPRON e da TideWise, entrou na água em agosto de 2026, como a Conexão Naval mostrou em sua reportagem sobre drones navais.

O estudo registra uma ambição maior que a dos vizinhos. Enquanto sete das oito principais marinhas da região (Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru e Venezuela) atuam sobretudo em suas águas, a brasileira inclui a África Ocidental no seu espaço estratégico e treina com os parceiros do BRICS África do Sul e Índia. Na prática, a ambição esbarra nos meios. Com uma única fragata nova em serviço e boa parte da frota formada por patrulheiros costeiros, a Marinha do Brasil hoje se ocupa sobretudo da Amazônia Azul, as águas sob jurisdição brasileira. Brasil, Chile e Peru têm as frotas mais completas do hemisfério sul, cada um com quatro a seis submarinos, sete ou oito fragatas e um ou dois navios-doca de desembarque. Bolívia, Brasil, Colômbia e Peru mantêm flotilhas fluviais muito engajadas no combate ao narcotráfico.

O que entra em serviço em 2026 e 2027

Os dados do estudo param em 1º de janeiro de 2026. Desde então, o quadro brasileiro mudou, e muda mais até o fim de 2027:

  • Fragata Tamandaré (F200): incorporada em 24 de abril de 2026, na Base Naval do Rio de Janeiro, em Niterói. O recebimento definitivo está previsto para março de 2027. O estudo registra o programa como oito fragatas do tipo alemão MEKO A100, de 3.455 t, construídas pelo estaleiro Oceana (TKMS), em Itajaí (SC). Quatro estão contratadas, e outras quatro estão previstas num memorando de entendimento (MoU).
  • Fragata Jerônimo de Albuquerque (F201): em provas de mar desde 12 de agosto de 2026, com incorporação prevista para o primeiro semestre de 2027. A Cunha Moreira (F202), lançada em junho de 2026, está prevista para fevereiro de 2028, e a Mariz e Barros (F203), para fevereiro de 2029.
  • Navio-doca multipropósito Oiapoque (G350): o ex-HMS Bulwark, de 18.500 t e 176 m, comprado do Reino Unido em 2025. Londres confirmou oficialmente a transferência em 28 de agosto de 2026, e a incorporação à Marinha do Brasil deve ocorrer ainda este ano. Será o segundo maior navio da Esquadra. Sozinho, equivale a cerca de um quinto da tonelagem brasileira contada pelo estudo.
  • Navio-patrulha Mangaratiba (P73): quarto navio da classe Macaé, de 500 t, lançado ao mar em 27 de abril de 2026 no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, com incorporação prevista para o segundo semestre de 2026.
  • Submarino Almirante Karam (S43): o quarto e último da classe Riachuelo fez a primeira imersão estática em setembro de 2026, na região de Itacuruçá. A entrega ao setor operativo está prevista para 2027.

Mais adiante vem o submarino convencionalmente armado com propulsão nuclear (SCPN) Álvaro Alberto, de 6.000 t, que o estudo situa a partir de 2037. Ele já está em construção na Itaguaí Construções Navais (ICN), com assistência técnica francesa, exceto na propulsão nuclear, que é desenvolvida pelo Brasil.

Transferência de tecnologia: Tamandaré e PROSUB

O estudo dedica um trecho ao que chama de “avanço das transferências de tecnologia”. Graças a acordos de licença e de transferência, vários países passam a produzir fragatas ou retomam essa produção: Brasil, Colômbia, Egito, Indonésia, Paquistão, Peru e Polônia. Colômbia e México projetam seus próprios navios-patrulha oceânicos, e o Chile, navios logísticos.

O Brasil tem os dois caminhos em curso. Nas Tamandaré, o projeto alemão MEKO A100 é construído em Itajaí, com mão de obra brasileira, pelo consórcio Águas Azuis (TKMS, Embraer e Atech), no estaleiro Oceana, controlado pela TKMS. No Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), a parceria com a francesa Naval Group produziu em Itaguaí (RJ) os quatro submarinos da classe Riachuelo, derivados do Scorpène, e agora constrói o Álvaro Alberto. Na região, o modelo se repete: a Colômbia vai construir no estaleiro Cotecmar cinco fragatas do tipo holandês Sigma 10514; o Peru, uma fragata do tipo coreano HDF-3200 no estaleiro SIMA, com assistência da Hyundai; e o Equador, um navio-patrulha oceânico MPV70 MkII no estaleiro Astinave, com a alemã Fassmer.

Ilustração em corte do submarino convencionalmente armado com propulsão nuclear Álvaro Alberto, da Marinha do Brasil, navegando na superfície
O submarino convencionalmente armado com propulsão nuclear Álvaro Alberto, em construção em Itaguaí, em ilustração em corte. Ilustração: Marinha do Brasil, reproduzida do estudo da Euronaval 2026.

Na produção dos últimos dez anos, o Canadá lidera a região em valor, e o Brasil vem em segundo. De 2016 a 2025, os estaleiros brasileiros entregaram cinco navios militares acima de 200 t, avaliados em 3,07 bilhões de dólares. Em 2024-2025, o estudo contabiliza um navio brasileiro de 1.850 t, avaliado em 1 bilhão de dólares. O próprio estudo faz uma ressalva: quando um estaleiro trabalha sob licença, o valor é atribuído ao país construtor, porque os detalhes dos contratos com o projetista estrangeiro não são conhecidos.

Quem constrói navios militares nas Américas

Valor dos navios militares e de guarda-costeira acima de 200 t entregues pelos estaleiros de cada país de 2016 a 2025, em milhões de dólares. Entre parênteses, o número de navios.

Canadá (10)US$ 7.146 mi
Brasil (5)US$ 3.070 mi
México (10)US$ 656 mi
Colômbia (8)US$ 524 mi
Peru (7)US$ 342 mi
Chile (2)US$ 264 mi
Venezuela (1)US$ 50 mi
Equador (2)US$ 10 mi
Fonte: estudo “La construction navale de défense dans le monde 2026”, Flottes de Combat e GICAN para a Euronaval. Gráfico: Conexão Naval.

Canadá: escoltas para substituir

Com 25 navios, o Canadá chega a 91.287 t porque sua frota é feita de navios maiores. A marinha canadense desdobra regularmente suas fragatas na Europa e no Indo-Pacífico, mas perdeu temporariamente a defesa antiaérea de longo alcance com a baixa de seus quatro destróieres. As 12 fragatas seguirão em serviço por pelo menos mais dez anos, assim como os quatro submarinos da classe Victoria, modernizados mas envelhecidos. Os navios-patrulha oceânicos do Ártico, três deles recebidos em 2024-2025, afirmam a soberania canadense na zona econômica exclusiva próxima da Groenlândia e controlam a passagem nas águas polares.

Dois programas vão redesenhar a frota: 15 destróieres da classe River, derivados das fragatas britânicas Type 26, de 8.000 t, a construir pela Irving entre 2030 e 2050; e o projeto de submarinos CPSP, 12 submarinos com propulsão AIP (independente do ar) do tipo alemão 212CD, de 2.500 t, em parceria com Alemanha e Noruega e entregas a partir de 2035. Ottawa escolheu a TKMS como proponente preferencial em julho de 2026.

México, Chile, Peru e Argentina

México. Com um domínio marítimo enorme e uma única fragata moderna, a marinha mexicana está no centro da guerra interna contra os cartéis. Tem 24 navios-patrulha oceânicos relativamente recentes, que substituíram antigas fragatas e corvetas ex-americanas, todos com helicóptero embarcado. O programa Yucatán prevê 12 patrulheiros oceânicos de projeto nacional, do estaleiro Astimar, a partir de 2027, e o plano 2024-2030 inclui ainda 12 lanchas rápidas contra o narcotráfico e um navio logístico.

Chile. É o único país da região com mísseis antiaéreos de longo alcance. Tem quatro submarinos e oito grandes navios de combate. O estaleiro estatal Asmar vai construir quatro navios anfíbios polivalentes Magallanes, de 8.000 t, a partir de 2027, e oito fragatas polivalentes do programa Futura Fragata, de 5.200 t, a partir de 2030. A substituição dos dois submarinos Type 209 está em estudo.

Peru. Tem a maior força de submarinos da região na contagem do estudo, com seis, além de sete grandes navios de combate. O estaleiro SIMA vai construir uma fragata do tipo HDF-3200, com entrega prevista para 2030, e um navio-patrulha oceânico HDP-2200.

Argentina. Antes parte do trio de frente da região, não tem submarino operacional desde o naufrágio do San Juan, em 2017. A frota de superfície é antiga, com três destróieres e seis corvetas na casa dos 50 anos. Quatro navios-patrulha oceânicos entregues pela França entre 2020 e 2022 fazem a maior parte das patrulhas de soberania.

Colômbia, Equador, Venezuela e Cuba

Colômbia e Equador têm, respectivamente, quatro e dois submarinos, quatro e duas fragatas e duas e seis corvetas, todos antigos e à espera de substituição. Quatro navios-patrulha oceânicos e dois guarda-costas mais recentes aliviam a vigilância marítima dos dois países. A Colômbia constrói no estaleiro Cotecmar quatro patrulheiros oceânicos de projeto local, de 2.600 t, o primeiro já entregue, e prepara cinco fragatas Sigma para a década de 2030. O Equador estuda substituir suas duas fragatas.

Na Venezuela, o núcleo da frota são três corvetas e três patrulheiros de guarda-costeira entregues pela Espanha a partir de 2005. Cinco das seis fragatas foram desmontadas e a última está indisponível, assim como os dois submarinos, parados desde 2004 e 2017. A marinha cubana tem um minissubmarino de 21 metros, dois pesqueiros transformados em patrulheiros lança-mísseis e uma corveta de origem soviética; os mísseis antinavio dos patrulheiros desativados viraram baterias em terra, e os torpedos foram montados em pequenos catamarãs.

Uruguai e República Dominicana usam como patrulheiros oceânicos, respectivamente, um velho navio-tanque reabastecedor e três velhas barcaças. Honduras e vários países insulares (Bahamas, Barbados, Jamaica, São Vicente e Granadinas, Trinidad e Tobago) contam com patrulheiros modernos de guarda-costeira. Todas essas marinhas participam dos exercícios anuais UNITAS, organizados pela US Navy, e algumas também do RIMPAC.

PaísPorta-helicópterosSubmarinosGrandes navios de combatePequenos navios de combatePatrulha oceânicoPatrulha costeiroGuerra de minasAnfíbiosTotal
Brasil158–7224451
México––113311–450
Colômbia–46–515–636
Peru–678141330
Chile–48346–429
Argentina–213211–––28
Canadá–412–5–4–25
Venezuela––1534–1124
Equador–2291–––14
Navios de combate acima de 200 t em serviço em 1º/1/2026, incluindo unidades inativas ou em manutenção prolongada. Fonte: Flottes de Combat / GICAN, estudo para a Euronaval 2026.

Análise

A liderança brasileira é real, mas apertada, e o estudo usa para a região inteira uma expressão que serve de alerta: “uma grande necessidade de renovação”. O Brasil está à frente do Canadá por menos de 3 mil toneladas, e boa parte de seus 51 navios são patrulheiros costeiros. O que muda o quadro nos próximos dois anos é a chegada de navios novos de verdade: duas fragatas Tamandaré, o Oiapoque e o Almirante Karam. Se o calendário se mantiver, a próxima edição do estudo deve mostrar a Marinha do Brasil mais longe do Canadá, ao menos até que os destróieres River e os submarinos 212CD canadenses comecem a chegar, na década de 2030.

O ponto mais interessante para o Brasil, porém, é industrial. O estudo coloca o país entre os que voltaram a produzir fragatas graças à transferência de tecnologia, e os números confirmam que, na região, só o Canadá investe mais em construção naval militar. O desafio é manter o ritmo: com as Tamandaré, o PROSUB e os navios-patrulha da classe Macaé, a indústria naval brasileira tem encomendas até o fim da década. A continuidade depende de que as quatro fragatas previstas no memorando de entendimento sejam de fato contratadas, além das quatro já encomendadas, e da regularidade dos orçamentos.

Fontes: Flottes de Combat e GICAN, La construction navale de défense dans le monde 2026 (A construção naval de defesa no mundo 2026), estudo para a Euronaval 2026, recebido pela Conexão Naval em 20/10/2026; Jornal Grande Bahia, 02/05/2026 (incorporação da Tamandaré); Defesa em Foco, 13/07/2026 (cronograma das fragatas); Poder Naval, 12/08/2026 (F201); Zona Militar, 07/02/2026, e Revista Sociedade Militar, setembro de 2026 (Oiapoque); Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (Mangaratiba); Cruzeiro FM, 30/09/2026, e Revista Sociedade Militar, outubro de 2026 (classe Riachuelo); Naval News, julho de 2026 (CPSP).

Colaboraram Roque Bagre e Claudio Sardinha (Redação IA). Edição de imagens: Chatel Cherne (Redação IA).
* Gráficos e ilustrações: material de imprensa da Euronaval 2026, estudo da Flottes de Combat e do GICAN. Ilustração do submarino Álvaro Alberto: Marinha do Brasil, reproduzida do estudo. Gráfico das marinhas com legendas traduzidas pela Conexão Naval; infográfico de capa e gráfico de produção redesenhados pela Conexão Naval com os dados do estudo.

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