Por Rogerio Rebouças
Nova estrutura da Marinha integra informações de diferentes instituições e países para ampliar a consciência situacional marítima. Cooperação com a União Europeia abre uma nova dimensão para a segurança do Atlântico Sul.
A proteção do Atlântico Sul exige mais do que navios de guerra, aeronaves de patrulha e sistemas de vigilância. Exige informação, capacidade de análise e cooperação entre os países que compartilham esse espaço marítimo estratégico.
Com esse objetivo, a Marinha do Brasil ativou, em 3 de novembro, no Rio de Janeiro, o Information Fusion Center (IFC) Atlântico Sul, um Centro Internacional de Fusão de Informações instalado nas dependências do Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul (COMPAAz). O ato de ativação foi assinado pelo ministro da Defesa, José Mucio Monteiro.
A iniciativa busca ampliar a Consciência Situacional Marítima (Maritime Domain Awareness, MDA), integrando informações provenientes de diferentes fontes para identificar comportamentos suspeitos, antecipar ameaças e apoiar a proteção das rotas comerciais, dos recursos naturais e das infraestruturas marítimas.
O alcance geográfico da iniciativa é significativo. A área considerada pelo projeto abrange aproximadamente 40,3 milhões de quilômetros quadrados do Atlântico Sul, incluindo a Amazônia Azul, com seus cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados de espaços marítimos sob jurisdição brasileira.
Mais informação para proteger o oceano
O funcionamento do IFC está estruturado em três pilares: fusão de dados, integração entre parceiros e cooperação.
Na prática, informações de diferentes instituições poderão ser correlacionadas e analisadas para identificar atividades atípicas, embarcações com comportamentos suspeitos, ilícitos no ambiente marítimo e possíveis ameaças às instalações offshore.
O centro também produzirá boletins periódicos, relatórios, estudos analíticos e avaliações sistemáticas do ambiente marítimo. Esses produtos poderão subsidiar o planejamento e o emprego de navios, aeronaves e equipes de fiscalização, permitindo direcionar os recursos disponíveis para áreas e situações que demandem maior atenção.
O primeiro diretor do IFC é o Contra-Almirante Luciano Calixto de Almeida Junior, também comandante do COMPAAz.

Um aspecto importante é que o centro não substitui as atribuições legais dos órgãos responsáveis pela fiscalização e pelo controle marítimo. Sua função é aproximar essas instituições, facilitar o intercâmbio de informações e melhorar a coordenação das respostas.
Cooperação internacional: quem são os parceiros?
A dimensão internacional é um dos elementos centrais do projeto. A proposta da Marinha é estabelecer um ambiente de colaboração envolvendo outras Marinhas, Guardas Costeiras, órgãos governamentais, empresas e centros especializados em análise e compartilhamento de informações marítimas.
Um dos sinais concretos dessa orientação é a participação da Namíbia. Durante a apresentação do centro, o Contra-Almirante Sacheus Randy Gonteb, comandante da Marinha namibiana, destacou a importância da iniciativa para ampliar o conhecimento sobre as embarcações que operam nas áreas de responsabilidade dos países da região.
A aproximação com países africanos é particularmente relevante. A segurança do Atlântico Sul envolve interesses compartilhados por nações sul-americanas e africanas, desde a proteção das rotas comerciais até o combate à pesca ilegal e às atividades ilícitas no mar.
Entretanto, a Marinha ainda não divulgou uma relação completa dos países que participarão da estrutura nem os respectivos níveis de compartilhamento de informações.
União Europeia e a conexão com o EU-CRIMARIO
Uma conexão institucional importante já foi estabelecida antes mesmo da ativação do IFC.
Em 1º de outubro de 2026, a Marinha do Brasil assinou um Memorando de Entendimento com o EU-CRIMARIO (European Union Critical Maritime Routes), iniciativa financiada pela União Europeia para fortalecer a segurança marítima, a cooperação internacional e o intercâmbio de informações.
Entre os instrumentos utilizados está a plataforma IORIS, ambiente digital seguro destinado à comunicação, coordenação e troca de informações entre instituições envolvidas em atividades marítimas.
A cooperação não surgiu de maneira isolada. Nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, o COMPAAz recebeu servidores da Receita Federal para treinamento no emprego da plataforma IORIS, com a participação de um representante do EU-CRIMARIO.
O programa é implementado pela Expertise France, agência francesa de cooperação técnica, com financiamento da União Europeia. Sua terceira fase, iniciada em 2025 e prevista até 2028, ampliou o alcance geográfico da iniciativa para países da América Latina, incluindo o Brasil.
É importante distinguir, porém, a participação brasileira no programa europeu de uma eventual participação direta da França no IFC Atlântico Sul. Até o momento, não há confirmação pública de que a Marine nationale integre formalmente o novo centro brasileiro.
A possibilidade de aprofundar essa cooperação merece atenção. A França possui interesses estratégicos no Atlântico, presença militar na Guiana Francesa e responsabilidades de segurança marítima na região. Uma eventual integração de informações com o Brasil poderia ampliar a cooperação em áreas de interesse comum.
Proteção das infraestruturas e das rotas marítimas
A segurança do Atlântico Sul não se limita à vigilância das embarcações. A região concentra importantes rotas de comércio internacional, atividades de exploração de petróleo e gás, recursos pesqueiros e infraestruturas essenciais para a economia dos países costeiros.
Cabos submarinos de telecomunicações, instalações offshore e linhas de comunicação marítima também fazem parte desse cenário.

A capacidade de cruzar informações de diferentes fontes pode ajudar a identificar situações anormais e orientar as autoridades responsáveis antes que um incidente se transforme em uma ameaça concreta.
Nesse contexto, o IFC Atlântico Sul acrescenta uma dimensão de integração ao esforço brasileiro de proteção da Amazônia Azul. Seu funcionamento poderá aproximar o monitoramento nacional das redes internacionais de cooperação marítima.
Um novo instrumento para a estratégia brasileira no Atlântico Sul
A ativação do IFC Atlântico Sul representa um passo na construção de uma rede de cooperação voltada à segurança marítima regional.
O desafio agora será transformar a estrutura inaugurada em um centro efetivamente integrado, com parceiros identificados, procedimentos de compartilhamento definidos e capacidade permanente de produzir análises úteis para as instituições envolvidas.
Mais do que acompanhar o movimento dos navios, o objetivo é compreender o que acontece no oceano, identificar riscos e permitir respostas coordenadas.
Para o Brasil, que possui uma extensa área marítima sob sua responsabilidade e interesses econômicos e estratégicos em todo o Atlântico Sul, a informação passa a ocupar um lugar cada vez mais importante na proteção do mar.
IFC Atlântico Sul em resumo
- Ativação: 3 de novembro de 2026, ato assinado pelo ministro da Defesa, José Mucio Monteiro
- Sede: Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul (COMPAAz), Rio de Janeiro
- Diretor: Contra-Almirante Luciano Calixto de Almeida Junior, comandante do COMPAAz
- Área de interesse: cerca de 40,3 milhões de km² do Atlântico Sul, incluindo os 5,7 milhões de km² da Amazônia Azul
- Pilares: fusão de dados, integração entre parceiros e cooperação
- Parceiro europeu: EU-CRIMARIO (memorando de 1º de outubro de 2026) e plataforma IORIS
*Fotos: Marinha do Brasil. **Imagem: MarineTraffic (captura de tela).





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