Por Rogerio Rebouças
As marinhas do mundo somam 3.575 navios de combate acima de 200 toneladas e 9,8 milhões de toneladas de deslocamento, segundo o estudo da Euronaval sobre a construção naval de defesa em 2026. Estados Unidos, China e Rússia concentram mais da metade dessa tonelagem. Os americanos seguem muito à frente em tonelagem, mas a China já tem a maior frota em número de navios e, em 2024 e 2025, entregou mais que o dobro da tonelagem produzida pelos estaleiros dos EUA.
O estudo La construction navale de défense dans le monde 2026 foi preparado para a Euronaval pelos especialistas da Flottes de Combat, a referência francesa em ordens de batalha navais, e do GICAN, o grupo das indústrias navais francesas. A Conexão Naval recebeu o documento depois da conferência de imprensa do salão, em 20 de outubro. A divulgação aos demais jornalistas está prevista para o dia 22. Os números de frota valem para 1º de janeiro de 2026 e não incluem guardas costeiras nem navios auxiliares.

Um mar mais disputado
O estudo abre com um diagnóstico: o fato naval voltou ao centro da estratégia. Na Ucrânia, Kiev obrigou a frota russa a se afastar das bases da Crimeia combinando drones aéreos e de superfície, mísseis de longo alcance e operações especiais, e o Mar Negro inteiro virou espaço de confronto. No Oriente Médio, os ataques dos houthis ao tráfego no Mar Vermelho, iniciados depois do massacre de 7 de outubro de 2023, foram seguidos pela guerra com o Irã. Segundo o estudo, a operação americano-israelense de fevereiro de 2026 destruiu as principais unidades da marinha iraniana e dos Guardiões da Revolução, com o torpedeamento de uma fragata iraniana por um submarino americano. Teerã respondeu restringindo a navegação em Ormuz, onde o tráfego segue muito abaixo do normal, enquanto os houthis avançam em torno de Bab el-Mandeb.
No Indo-Pacífico, a pressão chinesa sobre Taiwan recoloca no centro o debate entre controle do mar (sea control) e negação do uso do mar (sea denial). Taiwan aposta numa defesa distribuída e assimétrica, inspirada na Ucrânia, e o Japão integra mísseis Tomahawk aos seus navios. Em Washington, o governo Trump aponta Pequim como a principal ameaça e reabre o diálogo com Moscou. Os europeus prometem gastar 5% do PIB com defesa até 2035, enquanto as ameaças de anexar a Groenlândia, diz o estudo, fragilizam a coesão da OTAN. Depois de décadas de operações expedicionárias, as marinhas ocidentais se preparam para combates de alta intensidade.
Estados Unidos: a maior frota, com limites
Os Estados Unidos mantêm a maior marinha do mundo em tonelagem: 283 navios e cerca de 3,1 milhões de toneladas. A força gira em torno da projeção de poder: 11 porta-aviões, 9 navios de assalto anfíbio porta-aeronaves e 23 navios-doca de desembarque, escoltados por 7 cruzadores e 74 destróieres, todos com o sistema antimíssil Aegis. A dissuasão nuclear repousa em 14 submarinos nucleares lançadores de mísseis balísticos (SSBN), e a frota submarina de ataque soma 54 submarinos nucleares de ataque (SNA).
O estudo aponta limites. Os três destróieres Zumwalt, em conversão para receber mísseis hipersônicos, ainda não estão de fato operacionais, e os 27 Littoral Combat Ships ficam com missões secundárias, como combate ao narcotráfico e guerra de minas. A própria US Navy estima a disponibilidade operacional média em 66% para os submarinos, 45% para os porta-aviões, 41% para os navios anfíbios e 68% para os demais navios de combate, e quer passar de 70% encurtando a manutenção.
Na guerra contra o Irã, de 28 de fevereiro a 8 de abril de 2026, os porta-aviões Abraham Lincoln e Gerald R. Ford, mantidos fora do alcance dos mísseis balísticos iranianos, geraram juntos mais de 300 surtidas por dia. Mas foram cerca de dez destróieres Arleigh Burke que lançaram a maior parte dos 850 mísseis Tomahawk disparados contra a República Islâmica.
China: líder em número e em ritmo
A China é a segunda em tonelagem, com cerca de 1,4 milhão de toneladas, e a primeira em número de plataformas: 418 navios de combate acima de 200 toneladas. Mais de 40% dessa ordem de batalha entrou em serviço nos últimos oito anos. Pequim tem seis SSBN, que segundo o estudo já podem atingir o território americano a partir da ilha de Hainan, e mantém a maior frota submarina do Pacífico, com 13 SNA e 49 submarinos convencionais, dois terços deles com propulsão independente do ar (AIP).
Na superfície, são 111 destróieres e fragatas e cerca de 50 corvetas, uma frota capaz de operar em escala mundial para proteger as rotas marítimas. As forças de projeção (três porta-aviões, quatro porta-helicópteros ou porta-drones e nove navios de assalto) têm como objetivo, segundo o estudo, dissuadir o partido independentista no poder em Taiwan de declarar a independência.
Rússia: dissuasão em primeiro lugar
A Rússia mantém o terceiro lugar, com cerca de 660 mil toneladas e 209 navios. O declínio desde 1991 é brutal: de 122 para 17 SNA, de 59 para 20 submarinos convencionais, de 33 para 4 cruzadores, de 45 para 7 destróieres e de 122 para 9 fragatas. A prioridade é a dissuasão: 11 SSBN estão em serviço e o torpedo nuclear Poseidon fez seu primeiro teste em 2025. A produção de submarinos de ataque, porém, não basta para enfrentar a OTAN ou a China no fundo do mar.
A renovação dos grandes navios de superfície esbarra na perda das turbinas a gás ucranianas. Para compensar, cerca de 40 corvetas armadas com mísseis de cruzeiro Kalibr e Oniks, e em breve com o hipersônico Zircon, ocupam provisoriamente o lugar das grandes escoltas. O único porta-aviões russo não será reparado, e um quarto dos grandes navios anfíbios foi perdido, sobretudo para drones ucranianos.
Europa e Indo-Pacífico
Na Europa, Reino Unido (324 mil t) e França (260 mil t) lideram, cada um com quatro SSBN e seis ou sete SNA, além dos três maiores porta-aviões do continente. O estudo é duro com as duas: o armamento fica, em alguns domínios, aquém das exigências da alta intensidade, e os estoques de munição e a capacidade de carga são inferiores aos de navios equivalentes chineses e americanos. A Royal Navy, como as marinhas alemã e italiana, enfrenta dificuldades de recrutamento que afetam a disponibilidade. Somadas, as frotas europeias superam a russa numa proporção de cerca de 4 para 1, exceto no domínio submarino, mas ficam em torno de 1 para 3 diante da americana.
No Indo-Pacífico, o Japão (4º, com 390 mil t) transforma dois destróieres porta-helicópteros em porta-aviões e compra mísseis de cruzeiro, e a Índia (5ª, com 351 mil t) já tem dois SSBN. A Austrália, pelo pacto AUKUS, espera seus SNA e precisa prolongar por pelo menos dez anos a vida dos seis submarinos atuais. A Coreia do Norte lançou em 2025 dois grandes destróieres apresentados como portadores de armas nucleares.
A corrida nos estaleiros
O mercado mundial de construção naval militar e paramilitar passou de 82 bilhões de dólares em 2022-2023 para mais de 122 bilhões em 2024-2025, alta de 50%. Em tonelagem, o salto foi de cerca de 1 milhão para 1,5 milhão de toneladas. Os SNA lideram em valor (27,3 bilhões de dólares), com a produção triplicada de 6 para 17 unidades. Os destróieres quase dobraram: de 13 para 22 ou 24, conforme a classificação adotada por cada país.
A diferença entre as duas potências ficou explícita. Em dois anos, a China produziu 636 mil toneladas, contra 270 mil dos Estados Unidos e 149 mil da Rússia. A indústria chinesa entregou um porta-aviões, dois navios de assalto porta-aeronaves, nove SNA, dez destróieres e seis fragatas. A americana, três SNA, quatro destróieres e cinco Littoral Combat Ships. O grupo estatal CSSC, o maior construtor naval do mundo, se consolidou em 2025 com a absorção da antiga rival CSIC. Diante da duplicação da capacidade de produzir submarinos nucleares no estaleiro chinês de Huludao, Washington quer que Electric Boat e Newport News passem de 13 para 70 milhões de horas-homem para construir ao mesmo tempo um SSBN Columbia e dois SNA Virginia por ano.

A corrida também é de drones. A China constrói e opera um porta-drones experimental, dois ou três grandes drones submarinos e vários drones de superfície, um deles do tamanho de uma corveta. Os Estados Unidos respondem com um grande drone submarino e drones de superfície armados com mísseis antinavio ou dedicados à guerra antissubmarino e de minas.
Paradoxalmente, menos navios entraram em serviço: 136 unidades de combate em 37 marinhas em 2024-2025, 25% a menos que em 2022-2023. A China lidera, com 26. O estudo prevê inversão da tendência já em 2026-2027, quando chegam os cascos que hoje lotam os estaleiros. Outra tendência é o avanço da transferência de tecnologia: acordos de licença permitem a vários países, entre eles o Brasil, produzir fragatas. O tema é tratado na matéria sobre as marinhas do Canadá e da América Latina.
Análise
Os números mostram duas corridas diferentes. Na tonelagem e na projeção de poder, os Estados Unidos ainda jogam em outra divisão, com mais que o dobro da tonelagem chinesa e onze porta-aviões. Na capacidade industrial, a vantagem é de Pequim, e é ela que define a próxima década: uma frota se mede pelo que está no mar, mas uma guerra longa se decide também pelo que os estaleiros conseguem repor. O plano americano de multiplicar por cinco as horas-homem nos estaleiros de submarinos é a confissão desse atraso.
A guerra com o Irã reforça outro ponto do estudo: quem disparou a maior parte dos mísseis foram os destróieres, não os porta-aviões. Volume de fogo e estoque de munição voltaram a pesar, e é justamente aí que o estudo vê as marinhas europeias em desvantagem. Para marinhas médias, como a brasileira, 17ª do mundo em tonelagem, a lição é que número de cascos não basta. Contam também a munição disponível, a indústria capaz de sustentar a frota e a velocidade para repor perdas.
Metodologia: os dados de frota referem-se a navios de combate de mais de 200 toneladas em serviço em 1º de janeiro de 2026, excluídos guardas costeiras e auxiliares, incluindo unidades temporariamente inativas ou em manutenção prolongada. O Irã não entra no ranking do mapa por falta de dados atualizados. Os dados de produção referem-se a navios militares e de guarda-costeira acima de 200 toneladas entregues entre 1º de janeiro de 2024 e 31 de dezembro de 2025. Fonte: Flottes de Combat.
Fonte: Flottes de Combat e GICAN, La construction navale de défense dans le monde 2026, estudo preparado para a Euronaval 2026, recebido pela Conexão Naval em 20/10/2026.
Colaboraram Roque Bagre e Claudio Sardinha (Redação IA). Edição de imagens: Chatel Cherne (Redação IA).
* Foto de capa: porta-aviões Fujian, com caças J-35 e J-15T e avião radar KJ-600 no convés. Foto: Ministério da Defesa da China (recortada). Mapa e quadro: material de imprensa da Euronaval 2026, estudo da Flottes de Combat e do GICAN (mapa em versão em português revisada pela Conexão Naval).





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