Por Rogerio Rebouças
Após o diagnóstico de insuficiência de armamentos e munições nas principais marinhas europeias apresentado pelo estudo da Euronaval, Paris sinaliza uma resposta que combina aumento das encomendas à MBDA, expansão da capacidade industrial e uma nova abordagem para a cooperação tecnológica internacional.
A insuficiência de armamentos e munições
A insuficiência de armamentos e munições disponíveis para enfrentar um conflito de alta intensidade constitui um dos desafios identificados pelo estudo sobre as marinhas europeias apresentado pela Euronaval.
A análise aponta fragilidades comuns às duas principais marinhas do continente, a britânica e a francesa: em determinados domínios, o poder de fogo disponível é insuficiente para atender às exigências de um combate de alta intensidade. Além disso, os estoques de munições e a quantidade de armamentos que os navios podem levar a bordo ficam aquém daqueles encontrados em unidades chinesas e americanas equivalentes.
É nesse contexto que ganham relevância as recentes declarações de Patrick Pailloux, délégué général pour l’armement (delegado-geral para o armamento, DGA), sobre a aceleração das encomendas de armamentos e a transformação do modelo de cooperação industrial da França.

Em entrevista ao programa Air&Défense, da BFM Business, em 30 de outubro de 2026, Pailloux revelou que o volume orçamentário das encomendas francesas à MBDA neste ano já alcançou um patamar quatro vezes superior ao registrado no ano anterior.
Embora não tenha apresentado a distribuição por família de armamentos, a declaração evidencia a prioridade atribuída à recomposição das capacidades militares. Pailloux classificou as munições como “prioridade absoluta” nos orçamentos deste ano e do próximo. Os números apareceram na audição do almirante Christophe Cluzel, chefe do Estado-Maior da Marinha francesa, na Assembleia Nacional, em 14 de outubro: 4 bilhões de euros para munições de todas as Forças Armadas no projeto de orçamento de 2027, contra 2,4 bilhões em 2026.
O governo francês estabeleceu duas prioridades para a MBDA: aumentar os volumes de produção e reduzir os prazos de entrega.
A empresa é considerada estratégica para a França, não apenas por ser seu principal fornecedor de mísseis, mas também por participar da componente aérea da dissuasão nuclear francesa. Desde 1º de novembro, o presidente-executivo da MBDA é Jean-Brice Dumont, vindo da Airbus, no lugar de Éric Béranger.
O desafio não é apenas comprar mais, mas produzir e entregar
A aceleração das encomendas representa uma resposta à necessidade de recompor os estoques e ampliar a disponibilidade de armamentos.
Entretanto, encomendas não significam entregas imediatas. A recomposição efetiva dos arsenais depende da capacidade industrial de produzir os sistemas contratados, da disponibilidade de componentes e da expansão das cadeias de fornecimento.
Para as forças navais europeias, essa questão tem uma dimensão particularmente importante.
Uma fragata equipada com sistemas modernos de defesa antiaérea, mísseis antinavio e capacidade de ataque em profundidade precisa dispor de munições suficientes para sustentar operações prolongadas.

A quantidade de células de lançamento vertical, por si só, não garante essa capacidade. É necessário considerar quantos mísseis estão efetivamente embarcados, a disponibilidade de munições para reposição e a infraestrutura logística necessária para reabastecer os navios.
A constatação do estudo Euronaval, portanto, não diz respeito apenas à modernização dos navios, mas também à profundidade dos arsenais e à capacidade de sustentação do esforço de combate.
Uma nova abordagem para a cooperação industrial
Outro aspecto relevante da entrevista diz respeito à evolução da estratégia francesa de cooperação internacional.
As negociações com os Emirados Árabes Unidos para sua participação no desenvolvimento do Rafale F5 representam um exemplo dessa mudança.
Em vez de propor a participação estrangeira no financiamento de uma plataforma militar completa, a França passou a oferecer a possibilidade de participação em equipamentos e subsistemas específicos.
O modelo prevê a cooperação em áreas como motores, radares, sensores, sistemas eletrônicos e pods, cujas tecnologias poderão ser reutilizadas em diferentes plataformas.
O acordo intergovernamental entre França e Emirados já foi assinado, mas os contratos industriais ainda dependem de negociações entre os fabricantes.
Pailloux apresentou essa abordagem como uma possível evolução dos grandes programas de armamentos, destacando que a cooperação poderá ser organizada em torno de tecnologias e equipamentos comuns, inclusive nos setores terrestre e naval.
As implicações para a indústria naval
A extensão dessa lógica ao setor naval merece atenção. O próprio Pailloux fez a ponte. Para ele, o futuro do combate aéreo não é um caça isolado, mas um caça cercado de drones, “grandes, pequenos, furtivos, rápidos, uns que aceitamos perder, outros não”. E acrescentou: “O mesmo vale para os navios; se ouvirem o almirante Cluzel, ele vai explicar da mesma forma.” A cooperação, segundo ele, pode se dar em torno de sensores e equipamentos reaproveitáveis de uma plataforma para outra, desde que tudo seja interoperável, daí a aposta francesa nas arquiteturas abertas.
Programas de fragatas e outros navios de combate envolvem uma cadeia industrial complexa, que inclui propulsão, geração de energia, radares, sonares, sistemas de gerenciamento de combate, comunicações e armamentos.
A possibilidade de desenvolver determinados equipamentos em cooperação com países compradores pode ampliar as oportunidades de participação industrial e tecnológica, sem exigir necessariamente uma parceria em torno de toda a plataforma.
Para empresas como Naval Group, Thales e MBDA, essa abordagem pode abrir novas possibilidades nos mercados de exportação.
Também pode favorecer a integração de sistemas de diferentes fabricantes, desde que sejam preservadas a compatibilidade técnica, a segurança e a interoperabilidade.
Entretanto, existe uma distinção importante entre essa estratégia industrial e o problema identificado pelo estudo Euronaval. Arquiteturas abertas e cooperação tecnológica podem facilitar a integração e a evolução dos sistemas, mas não resolvem, por si mesmas, a insuficiência de estoques nem a falta de capacidade de produção de munições.

Soberania tecnológica e autonomia operacional
A abertura à cooperação internacional não significa que a França esteja disposta a transferir o controle de suas tecnologias estratégicas.
Durante a entrevista, Patrick Pailloux destacou que soberania não significa necessariamente fabricar tudo em território nacional, mas conservar o controle sobre as capacidades essenciais e sobre as decisões relativas ao emprego dos sistemas de defesa.
Essa preocupação é especialmente importante no caso do Rafale, que integra a componente aérea da dissuasão nuclear francesa.
A Direção-Geral de Armamentos (DGA), com aproximadamente 10.600 profissionais, dos quais cerca de 8.000 atuam em engenharia e expertise, desempenha papel central na definição dos limites tecnológicos de cada parceria.
Para os programas navais, a mesma questão se coloca em relação aos sistemas de combate, sensores, comunicações e armamentos: a cooperação industrial precisa ampliar as capacidades sem criar dependências que comprometam a autonomia operacional.
Da constatação à resposta industrial
As duas questões abordadas — as fragilidades identificadas pelo estudo Euronaval e a nova orientação industrial francesa — fazem parte de um mesmo desafio estratégico europeu.
Não basta desenvolver navios modernos e equipá-los com sensores sofisticados. É necessário garantir que essas plataformas disponham de armamentos em quantidade suficiente, que a indústria consiga repor os estoques e que as cadeias de fornecimento possam sustentar operações de alta intensidade.
O aumento das encomendas à MBDA e a busca por novas modalidades de cooperação industrial mostram duas dimensões da resposta francesa: acelerar a disponibilidade de armamentos e preparar uma estrutura de desenvolvimento e produção mais integrada internacionalmente.
O resultado, entretanto, dependerá da capacidade de transformar encomendas em entregas, ampliar efetivamente as cadências industriais e garantir que as forças armadas disponham dos estoques necessários.
A questão central para as marinhas europeias não é apenas quantos navios modernos possuem, mas quanto poder de fogo conseguem levar para o mar, por quanto tempo podem sustentá-lo e com que rapidez conseguem reabastecer seus arsenais.
Leia também, sobre o estudo da Euronaval 2026: China já constrói mais que o dobro dos EUA; Quatro marinhas europeias constroem de tudo; A Ásia se arma de olho na China; Brasil vai ampliar vantagem sobre o Canadá em 2027.
Fontes: entrevista de Patrick Pailloux, délégué général pour l’armement, ao programa Air&Défense, da BFM Business, em 30/10/2026 (vídeo); La Tribune e Air & Cosmos, 30/10/2026; Flottes de Combat e GICAN, La construction navale de défense dans le monde 2026 (A construção naval de defesa no mundo 2026), estudo para a Euronaval 2026.
Colaborou Chatel Cherne (Redação IA).
* Foto de capa: a fragata FREMM Normandie dispara um Aster 30 no exercício Formidable Shield 25, em 15/05/2025, imagem ilustrativa (©Thomas Bruno/Marine Nationale/Défense). Fragata Alsace: ©Pauline Misse/Marine Nationale/Défense. Patrick Pailloux: ©SCH Christian Hamilcaro/Dicod/Défense. Ilustração do Aster 30: Z3144228 / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0 (recortada).





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