Por Editor

À frente da Marine Nationale desde 15 de julho, quando sucedeu o almirante Nicolas Vaujour como 64º chefe do Estado-Maior da Marinha, o almirante Christophe Cluzel definiu em entrevista à revista Cols bleus, publicada em 13 de outubro, três eixos para seu comando. O primeiro é aumentar a letalidade e a resiliência da frota, porque “o aumento da desordem estratégica torna a hipótese de um confronto mais realista”. Para isso, defende um melhor “mix high/low”: mais armas de desgaste, como drones interceptores de drones, ao lado das armas “de decisão”, como o míssil Aster. O segundo é um “choque de hibridação”, um sistema de forças híbrido e aumentado, com arquitetura digital aberta, para acompanhar o ritmo da inovação. O terceiro, que ele chama de “o desafio mais complexo”, são os recursos humanos: a Marinha tem 41 mil militares e civis, e o universo de recrutamento deve encolher 25% até 2035. Nesse ponto, Cluzel aposta na expansão do Serviço Nacional e das reservas, com a meta de chegar a 18 mil reservistas em 2035.

Porta-aviões francês Charles de Gaulle (R91) atracado na base naval de Toulon, com as montanhas ao fundo
Charles de Gaulle na base naval de Toulon. Foto: Rogerio Rebouças / Conexão Naval

Cluzel também destacou a missão La Fayette 26, em que o grupo aeronaval do Charles de Gaulle passou em março do Grande Norte ao Mediterrâneo oriental e depois ao largo do estreito de Ormuz, e reforçou as parcerias com a OTAN e os europeus, citando a operação ASPIDES no mar Vermelho e a luta contra a “frota fantasma”. O Brasil e o Atlântico Sul não aparecem na entrevista. Em paralelo, programas concretos avançam: o 5º submarino nuclear de ataque da classe Barracuda, o Rubis, será entregue à Marinha nos próximos dias, e a primeira fragata de defesa e intervenção (FDI), a Amiral Ronarc’h, deve ser admitida ao serviço ativo no início de 2027.

O novo porta-aviões e as catapultas americanas

Lancha semirrígida com três fuzileiros navais franceses navega diante do porta-aviões Charles de Gaulle atracado em Toulon
Lancha semirrígida dos fuzileiros navais franceses patrulha a base naval de Toulon diante do porta-aviões Charles de Gaulle, em 20 de setembro de 2026. Foto: Rogerio Rebouças / Conexão Naval

Na primeira audição como chefe da Marinha na Comissão de Defesa da Assembleia Nacional, em 14 de outubro, sobre o orçamento de 2027, Cluzel foi questionado pela deputada Catherine Rimbert (Vaucluse) sobre a compra das catapultas eletromagnéticas (EMALS) e do sistema de parada da General Atomics para o futuro porta-aviões France Libre. A deputada lembrou que um memorando presidencial americano de 13 de agosto mandou estudar a volta às catapultas a vapor nos futuros porta-aviões dos Estados Unidos.

“A decisão americana não foi tomada, longe disso”, respondeu Cluzel. Ele encontra o chefe da Marinha dos Estados Unidos, almirante Daryl Caudle, em Washington na semana que vem, e o tema estará na conversa. Os Estados Unidos já fizeram “perto de 40.000” lançamentos com o sistema, com disponibilidade perto de 98%. Em março de 2026, o Pentágono registrava 36.863 lançamentos apenas no porta-aviões Gerald R. Ford. Os três primeiros navios da nova classe americana (Ford, John F. Kennedy e Enterprise) mantêm as catapultas eletromagnéticas. Cluzel elogiou a “temível confiabilidade” do sistema e a capacidade de lançar tanto aviões pesados quanto drones.

“Não vejo hoje nosso contrato ameaçado.” A dependência “foi assumida” no programa e “considerada controlada”. Um estudo previsto na atualização da lei de programação militar vai avaliar se a França consegue projetar sua própria catapulta, com custos e prazos; o resultado deve sair em 2028. Cluzel acha que a indústria seria capaz, mas “em prazos que ultrapassam muito” a entrada em serviço do France Libre e a um custo unitário bem maior.

Como fez com as catapultas a vapor do Charles de Gaulle, a Marinha vai mandar marinheiros aos Estados Unidos e comprar um estoque grande de sobressalentes para ser autônoma nos reparos.

France Libre e Charles de Gaulle vão navegar juntos de 2036 a 2038. Estudos sobre prolongar o Charles de Gaulle além de 2038 saem no início de 2029. Dois porta-aviões garantem um alerta a partir de Toulon, três uma presença permanente no mar, e essa escolha “é uma ambição política”. Sobre porta-aviões com caças de decolagem curta, ele se diz “muito mais cético”: a França quer um “porta-aviões de superioridade”, com catapulta, cabo de parada e propulsão nuclear.

Vídeo da audição na Assembleia Nacional (YouTube)

Análise

A entrevista é de continuidade: Cluzel diz que o rumo traçado por Vaujour, e antes por Pierre Vandier, “é o certo”. A novidade está no vocabulário. Falar em letalidade e em “mix high/low” é admitir que uma marinha de alta tecnologia não aguenta um conflito longo só com mísseis caros, lição que vem do mar Vermelho e da Ucrânia. É o mesmo dilema de qualquer marinha com poucos navios para um espaço enorme, como a Marinha do Brasil na Amazônia Azul.

Há também um padrão nas trajetórias. Cluzel comandou a fragata antiaérea Forbin (2015-2017) depois de ter sido seu imediato; Vaujour foi imediato da mesma Forbin e comandou sua gêmea, a Chevalier Paul. As duas fragatas da classe Horizon, a ponta da defesa antiaérea francesa, formaram os dois últimos chefes da Marinha. Elas entraram em serviço no fim da década de 2000 e passam por modernização de meia-vida, e a pergunta sobre quem vai substituí-las, enquanto a Itália já discute o futuro das suas, ficou fora da entrevista.

O Conexão Naval pediu uma entrevista ao almirante. A Marine nationale informou que a agenda dele não permite, mas propôs um encontro com um interlocutor durante a Euronaval, de 3 a 6 de novembro, em Paris. Vamos levar a pergunta sobre o sucessor das Horizon e sobre a cooperação com o Brasil. Dificilmente a resposta virá do próprio Cluzel, mas o leitor saberá o que for dito.

Fontes: Cols bleus, “Interview exclusive de l’amiral Christophe Cluzel”, 13/10/2026; audição na Comissão de Defesa da Assembleia Nacional, 14/10/2026; biografia oficial do almirante Vaujour (ministère des Armées).

Colaboraram Claudio Sardinha e Roque Bagre (Redação IA).
* Foto de capa: o almirante Christophe Cluzel (à esquerda) com o contra-almirante Joseph Cahill, da Marinha dos EUA, em Norfolk, em junho de 2024. Foto: U.S. Navy / MC1 Emily Casavant (domínio público).

Deixe um comentário

Em destaque

Descubra mais sobre Conexão Naval

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo