Por Rogerio Rebouças, de Paris
A Euronaval 2026 abriu nesta terça-feira, 3 de novembro, no Paris Nord Villepinte, com mais de 710 expositores e um tema que resume o momento: “Rumo à alta intensidade”. Para o presidente da feira, Pierre Éric Pommellet, o mar voltou a ser espaço de confronto, e a indústria naval está sob pressão para produzir mais e mais depressa.
A 30ª edição da principal feira de defesa naval da Europa vai até sexta-feira, 6 de novembro, no ano em que a Marinha francesa comemora 400 anos. Em entrevista ao Euronaval Daily, o jornal oficial do evento, Pommellet descreveu os espaços marítimos como uma “arena de confronto e competição estratégica”. Os conflitos na Europa, no Oriente Médio e no Indo-Pacífico, somados à necessidade de proteger rotas marítimas, cabos submarinos e infraestruturas críticas, estão levando as marinhas a rever prioridades.
Do lado da indústria, segundo ele, a cobrança é concreta: aumentar a produção, ganhar resiliência, garantir o apoio aos meios em serviço e se adaptar mais rápido. Pommellet cita um número: o valor da produção mundial de defesa naval cresceu 50% em apenas dois anos, e a aceleração já é visível nos estaleiros.
Navios de décadas, tecnologia de meses
O segundo eixo da feira é a inovação, e aqui o presidente da Euronaval aponta o problema próprio do setor: um navio é projetado para servir por décadas, enquanto a tecnologia muda em poucos anos, às vezes em meses. Drones, inteligência artificial, guerra eletrônica, cibersegurança, sensores e software precisam entrar rapidamente nos sistemas sem comprometer a segurança nem a interoperabilidade.
Para ele, uma tecnologia nova só tem valor militar de verdade depois de testada, qualificada, protegida contra ataques cibernéticos, produzida em escala e mantida ao longo de toda a vida útil. É a proposta do programa SEAnnovation, que traz cerca de 30 start-ups à feira e as aproxima das marinhas, dos grandes integradores e dos investidores.
O que o visitante vai encontrar
Entre os destaques, Pommellet aponta a conferência de abertura, sobre o papel renovado do poder naval nos conflitos modernos, e os debates sobre superioridade informacional, drones, IA, resiliência e aumento da produção. A feira reúne marinhas, grandes grupos industriais, pequenas e médias empresas, start-ups, investidores e delegações estrangeiras.
A feira ocupa todo o pavilhão 6 do Paris Nord Villepinte. Temos muitos estaleiros, como Naval Group, Fincantieri e Babcock. E temos os que produzem armamentos, como a MBDA, com um estande enorme. Há um estande das Forças Armadas francesas. Tem o pavilhão Brasil, e a Índia, com um pavilhão enorme também, mostrando muitos navios, que hoje vamos ver de perto. A Turquia também mostra suas novidades, com vários navios e várias armas. Israel está presente com a Elbit e a Rafael. E outros que produzem sensores, mísseis e drones, todos presentes. Há um espaço com produtos em tamanho natural, como lanchas e o próprio Rampart. Então a feira é muito interessante, muitos atores juntos. Eu acho que é um belo momento da indústria militar naval.





Análise: a feira da alta intensidade
O discurso de abertura de uma feira é, por definição, otimista: a organização vende espaço a expositores e precisa de uma narrativa de crescimento. Mas o diagnóstico de Pommellet não é só marketing. Pommellet vem da indústria (assumiu o comando da Naval Group em 2020), e o que descreve aparece nos fatos dos últimos meses: a França acelerando encomendas de mísseis à MBDA, a Suécia comprando fragatas FDI, a Grécia recebendo a sua primeira, e uma corrida aos drones de superfície e submarinos que a própria Euronaval vai exibir nos próximos dias.
Para o Brasil, a alta intensidade tem um endereço conhecido. Com o Mar Vermelho arriscado, o Atlântico Sul virou a rota alternativa da Europa para as “Índias”. O nosso mar vai ficar mais movimentado, sobretudo na costa africana e no Cabo das Tormentas, o da Boa Esperança. A rota dos descobridores portugueses é a bola da vez. O que para os europeus é desvio, para o Brasil é o caminho natural das exportações para a Ásia. Foi a pergunta que a Conexão Naval levou à coletiva de imprensa da Euronaval, em outubro, e que mostrou o Atlântico Sul como quintal oceânico de europeus e brasileiros.
A outra pergunta para o leitor brasileiro é industrial: num mercado em que os estaleiros europeus estão cheios e a produção corre atrás da demanda, que lugar sobra para marinhas de médio porte, como a brasileira, que compram pouco e em ritmo lento? Prazos de entrega, preço e transferência de tecnologia tendem a ficar mais difíceis de negociar. São ângulos que a Conexão Naval vai acompanhar no Paris Nord Villepinte, onde a revista estará de 3 a 5 de novembro, nos estandes dos estaleiros, dos fabricantes de sensores e de armas, e na conversa com a Marine nationale.
Antes da feira, a Conexão Naval já publicou o estudo da Euronaval sobre as marinhas do mundo, o efeito da crise no Mar Vermelho sobre o Atlântico Sul e o navio da Naval Group que foi revelado na abertura, o SCX26.
Colaborou Claudio Sardinha (Redação IA)
Fonte: entrevista “3 questions for Pierre Éric Pommellet”, Euronaval Daily, 3/11/2026.
* Fotos: Rogerio Rebouças / Conexão Naval




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