Por Rogerio Rebouças, de Paris

Na abertura da Euronaval, a Conexão Naval mostrou em primeira mão a maquete do SCX26, o navio conceito de 8.000 toneladas da Naval Group. Agora, a entrevista completa: no estande, Aymeric Moullart de Torcy, responsável de marketing de drones e cibernética da empresa, explicou para a Conexão Naval e a Base Militar Video Magazine como o navio foi pensado, módulo por módulo.

A pergunta que o SCX26 tenta responder

“O navio conceito é um objeto de pesquisa operacional”, resume Moullart de Torcy. Ele serve para estudar o combate naval híbrido e parte de uma pergunta simples: agora que há drones para combater, o que devem se tornar os navios de combate do futuro?

A resposta da Naval Group é um navio que conserva os elementos de um grande escolta, armamento e radares de grande porte para ver e atingir longe, mas que funciona antes de tudo como centro de comando de uma frota híbrida. “Temos tantos navios quanto antes, mas multiplicamos as suas capacidades graças aos drones, que fazem o efeito de massa”, diz. A ideia é combinar “o melhor dos dois mundos”: o poder de fogo das fragatas e o efeito de massa dos drones, estendendo as capacidades do navio sem aumentar demais a carga de trabalho dos marinheiros.

A Naval Group não fala em destróier nem em fragata. O termo usado é “combatente de superfície”, de 8.000 toneladas.

Rumo a cem células de mísseis

A maquete mostra 32 células de lançamento vertical na proa e pelo menos outras 32 na parte de trás. Mas a meta vai além: segundo Moullart de Torcy, o objetivo é chegar a cerca de cem células e a mais de cem mísseis, com casulos de quatro mísseis por célula (quad pack) e a próxima geração do lançador Sylver, da própria Naval Group.

A zona flexível

Entre as duas superestruturas fica, nas palavras dele, a parte “muito interessante” do navio: a zona flexível, uma área de contêineres “onde se pode pôr o que se quiser”. Se a missão pede mais mísseis, ou mísseis de outro tipo, eles são instalados ali e trocados quando a tecnologia evolui. Se pede enxames de drones, também. “Vimos que as tecnologias evoluem muito rápido, então previmos uma zona capaz de acompanhar essa evolução.”

Na maquete, a zona flexível leva três tipos de carga: mísseis de longo alcance do tipo Aster; mísseis de curto alcance, menores, como o Aster 15 ou o VL MICA, da MBDA; e lançadores de enxames de drones. Olhando de perto, dá para distinguir os contêineres verticais de mísseis, com as tampas das células no alto, e, ao lado, as caixas baixas que guardam os drones. O modelo de drone representado é o maior disponível, que pode ser americano, mas, segundo Moullart de Torcy, qualquer tipo pode ser integrado se houver parceiros.

Detalhe da maquete do SCX26 da Naval Group: zona flexível entre as superestruturas, com contêineres verticais de mísseis e caixas baixas de drones, e um drone submarino no nicho lateral do casco
A zona flexível: contêineres verticais de mísseis e, à direita, as caixas baixas dos drones. No casco, o nicho de um drone submarino. Foto: Rogerio Rebouças / Conexão Naval

Combatente e porta-drones

Maquete do SCX26 da Naval Group ladeada pelo drone de superfície Seaquest S, com módulo de foguetes, e por um drone submarino preto; ao fundo, telão com renders do Seaquest M
O SCX26 e a sua frota híbrida: à esquerda, o drone de superfície Seaquest S; à direita, o drone submarino. Foto: Rogerio Rebouças / Conexão Naval

“Este navio é ao mesmo tempo um combatente de superfície tradicional e um navio porta-drones. É esse o futuro que estudamos”, afirma Moullart de Torcy. Em torno da maquete, a Naval Group expõe drones em todos os meios:

  • submarinos: um grande drone submarino, pensado para a luta antissubmarino e para negar áreas a submarinos inimigos;
  • de superfície: o Seaquest S armado, que pode ser embarcado na fragata e cuja proa modular recebe cargas úteis muito diferentes;
  • aéreos: drones helicópteros pesados, com autonomia de 8 a 10 horas, ou mais em alguns modelos, operando em equipe com o helicóptero tripulado.
Maquete do drone de superfície Seaquest S, da Naval Group, com mastro de sensores e módulo na proa, diante da maquete do SCX26
O Seaquest S, com o módulo na proa, diante do SCX26. Foto: Rogerio Rebouças / Conexão Naval

Sob o convoo, o hangar foi pensado para abrigar um helicóptero, guardar drones e até fabricá-los a bordo, sob demanda. O helicóptero da maquete é o NH90, da NHI, em serviço na Marinha francesa e em muitas outras, mas o tamanho da plataforma permite operar qualquer modelo, “como em todos os nossos navios”.

O que já existe e o que ainda virá

O SCX26 combina “blocos tecnológicos que já existem e estão prontos para uso” com outros de prazo mais longo. Do lado do que já existe, Moullart de Torcy cita o Rampart, o lançador antidrone de 15 tubos, e um detalhe prático: o módulo do Seaquest S é o mesmo do Rampart. Como sempre falta espaço a bordo, padronizar módulos permite levar mais munição do mesmo tipo e ganhar poder de fogo.

Do lado do longo prazo, o futuro radar de alcance muito longo e o canhão eletromagnético. Na maquete, o radar AESA atual aparece no quadrado menor, no alto da superestrutura, e o novo radar de longo alcance é o painel retangular maior, logo abaixo dele. Sobre o canhão, há dois projetos europeus, e a Naval Group diz estar pronta para integrá-lo. A empresa já estudou todas as consequências para a arquitetura elétrica, porque o canhão exige potências instantâneas enormes: a geração elétrica do navio tem de ser muito potente. Enquanto isso, o navio leva também uma versão de nova geração do canhão de 76 mm.

Detalhe da superestrutura da maquete do SCX26 da Naval Group, com o grande painel retangular do futuro radar de longo alcance; em primeiro plano, o mastro do drone Seaquest S
O grande painel retangular na superestrutura é o futuro radar de longo alcance; o AESA atual fica no quadrado menor, acima. Em primeiro plano, o mastro do Seaquest S. Foto: Rogerio Rebouças / Conexão Naval

Ficha técnica do SCX26

TipoNavio conceito, “combatente de superfície”. Sem programa nem cliente
DeslocamentoCerca de 8.000 t a plena carga
Comprimento127 m, segundo o Opex360; cerca de 170 m, segundo a TWZ (as fontes divergem)
BocaCerca de 24 m (TWZ)
PropulsãoCODLAG (diesel-elétrica e turbina a gás)
Velocidade30 nós
AutonomiaMais de 8.000 milhas náuticas
Tripulação150, mais 100 lugares para estado-maior e especialistas
Lançamento vertical12 módulos Sylver (8 na proa e 4 à ré), com até 96 mísseis, entre eles Aster 30 e MdCN (TWZ). Meta de cerca de 100 células e mais de 100 mísseis, com quad pack e o futuro Sylver NG (entrevista)
ArtilhariaCanhão eletromagnético para salvas rápidas; canhão de 57 mm (TWZ) ou 76 mm de nova geração (entrevista); peça secundária teleoperada de 360° (Opex360)
Defesa aproximadaDois lançadores Rampart, laser de 100 kW e munições teleoperadas
RadaresAESA derivado da família Sea Fire e radar UHF de nova geração para detectar mísseis balísticos e hipersônicos a longa distância
Sonar e guerra eletrônicaSuíte sonar completa e guerra eletrônica, sem detalhes
Aviação e dronesConvoo para um helicóptero médio e dois drones VTOL; baía de missão com elevador, descrita como uma pequena fábrica de drones, com manutenção e manufatura aditiva
MissõesDefesa aérea, guerra antissubmarino e ataque a terra
Fontes: entrevista da Conexão Naval com a Naval Group; TWZ; Opex360, 3/11/2026.

Análise: o que interessa ao Brasil

Nenhuma marinha vai encomendar o SCX26 como ele está na maquete. Mas três ideias da entrevista valem para marinhas muito menores que a francesa. A primeira é a zona flexível: um casco que troca mísseis por drones conforme a missão adia a obsolescência, e isso pesa para quem compra poucos navios e os mantém por 30 ou 40 anos. A segunda é a padronização de módulos entre o navio e os drones, que simplifica a logística de munição. A terceira é a lógica da massa: em vez de mais navios tripulados, caros e difíceis de guarnecer, mais drones comandados a partir de poucos navios.

A Marinha do Brasil já dá os primeiros passos nessa direção, com o VSNT do CASNAV operado a partir do NAM Atlântico e o SUPPRESSOR da EMGEPRON e da TideWise. O SCX26 mostra até onde essa lógica pode ir. A Conexão Naval volta ao estande da Naval Group na quinta-feira, 5 de novembro, para uma entrevista com a equipe da empresa.

Assista à entrevista

Aymeric Moullart de Torcy, da Naval Group, no estande da empresa na Euronaval 2026. Vídeo: Base Militar Video Magazine.

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Colaborou Chatel Cherne (Redação IA)


Fontes: entrevista de Aymeric Moullart de Torcy (Naval Group) à Conexão Naval e à BMVM, Euronaval 2026, 3/11/2026; The War Zone (TWZ), 3/11/2026; Zone Militaire (Opex360), 3/11/2026; Conexão Naval, 3/11/2026; Conexão Naval, 19/10/2026.

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