Por Rogerio Rebouças

A crise no Mar Vermelho empurrou para o Atlântico Sul boa parte do tráfego entre a Ásia e a Europa. Na conferência de imprensa da Euronaval, nesta terça-feira (20), a Conexão Naval perguntou se a rota do Cabo da Boa Esperança muda as prioridades da Marinha francesa. Foi o único veículo brasileiro a fazer uma pergunta. A resposta do comissário-geral do salão falou de custos e de escolta, mas não de mudança de prioridades.

Transmissão online da conferência de imprensa da Euronaval 2026: a apresentadora Aude Leroy e o comissário-geral Guillaume Merveilleux du Vignaux
A jornalista Aude Leroy, especializada em segurança e defesa, que apresentou a transmissão, e Guillaume Merveilleux du Vignaux, comissário-geral da Euronaval, na conferência de imprensa online de 20 de outubro*

A pergunta e a resposta

A conferência, transmitida pela internet, apresentou a 30ª edição da Euronaval, o maior evento deste tipo no mundo, que reúne cerca de 700 expositores de 40 países. A pergunta da Conexão Naval foi: “Com a insegurança no Mar Vermelho e em Bab el-Mandeb, a rota do Cabo da Boa Esperança ganhou importância. Isso modifica as prioridades da Marinha para a proteção do tráfego marítimo no Atlântico Sul?”

Respondeu o contra-almirante (2S) Guillaume Merveilleux du Vignaux, comissário-geral da Euronaval. Ele começou marcando distância: “Se a pergunta diz respeito à Marine nationale, cabe a ela responder”. Em seguida, tratou do custo do desvio (tradução livre):

“O senhor põe o dedo na questão do custo da travessia de Bab el-Mandeb e do Mar Vermelho, hoje sob ameaça. As companhias marítimas frequentemente decidem evitar esses riscos e contornar o perigo pelo Cabo, o que aumenta o custo do transporte, simplesmente porque o desvio é mais longo, e também o custo dos seguros, já que os riscos aumentam.”

Para o almirante, o papel das marinhas é defender os interesses do país, e esses interesses passam pelo custo de vida de todos os cidadãos. Por isso, cabe a elas proteger os navios mercantes que querem usar essas rotas. Ele lembrou que ainda há navios que atravessam o estreito e o Mar Vermelho, protegidos pela operação europeia Aspides, da qual a França participa, e que os Estados Unidos também empregam meios para proteger seus navios.

A resposta ficou no Mar Vermelho. Sobre o Atlântico Sul, nada. Não é surpresa: Merveilleux du Vignaux deixou o serviço ativo e fala pelo salão, não pela Marinha. Mas é um almirante que passou pelo Estado-Maior da Força de Ação Naval e pelo da OTAN, e sua ênfase no custo econômico do desvio diz muito sobre como Paris enxerga o problema. A Conexão Naval enviou a mesma pergunta ao serviço de imprensa da Marine nationale, que deve indicar um interlocutor para entrevista durante o salão.

O desvio em números

Antes dos ataques houthis, iniciados no fim de 2023, cerca de 80% da capacidade de porta-contêineres entre a Ásia e a Europa passava por Suez. De 2024 a meados de 2026, a média caiu para 8%, segundo análise da BIMCO com dados da Clarksons Research. O resto contornou a África. Como a viagem fica mais longa, a BIMCO estima que o desvio aumentou em cerca de 10% a demanda mundial por capacidade de transporte de contêineres.

O quadro começa a mudar. No início de outubro de 2026, a parcela que usa o canal subiu para 36%, a primeira vez que a capacidade semanal em Suez passa de metade do nível anterior à crise. Maersk e Hapag-Lloyd anunciaram desde julho a volta de linhas ao canal, algumas sob proteção naval. Ou seja, cerca de dois terços da capacidade ainda dão a volta pelo Cabo.

A operação Aspides, criada pela União Europeia em fevereiro de 2024, já apoiou mais de 1.570 navios e teve o mandato estendido até 28 de fevereiro de 2027. A Marine nationale participou com fragatas desde o início, e o almirante Christophe Cluzel, chefe do Estado-Maior da Marinha, citou em 14 de outubro, na Assembleia Nacional, caça-minas franceses no Mar Vermelho e no golfo de Omã.

O Atlântico Sul que a Europa redescobre

Para a Europa, o desvio transformou a costa ocidental da África num trecho obrigatório da principal rota comercial do mundo. Os navios descem pelo Atlântico, passam ao largo do Golfo da Guiné, região marcada por pirataria, pesca ilegal e narcotráfico, e dobram o Cabo. É uma rota mais longa, mais cara e, até aqui, mais segura.

A França está presente nessa região há mais de três décadas. A missão Corymbe, permanente desde 1990, mantém navios da Marine nationale no Golfo da Guiné, em apoio às marinhas africanas e à arquitetura de segurança marítima de Yaoundé. Foi numa patrulha Corymbe que a fragata de vigilância Ventôse apreendeu 2,4 toneladas de cocaína ao largo da África. A presença em terra, porém, diminuiu: em 2025, Paris entregou suas bases no Senegal e na Costa do Marfim. Manter a vigilância do mar com menos pontos de apoio é uma das perguntas que levaremos à Marine nationale.

E o Brasil?

O tráfego desviado navega pela margem africana, longe da costa brasileira. Ainda assim, o quintal oceânico do Brasil ficou mais movimentado. A Política Nacional de Defesa define como entorno estratégico brasileiro a América do Sul, o Atlântico Sul, os países da costa ocidental africana e a Antártica. A rota do Cabo atravessa exatamente essa área.

Os interesses brasileiros são diretos. Mais de 95% do comércio exterior do país passa pelo mar, segundo a Marinha do Brasil, e a Amazônia Azul, com cerca de 5,7 milhões de km², concentra a produção de petróleo do pré-sal. Mais navios no Atlântico Sul significam mais demanda por consciência situacional marítima, busca e salvamento e cooperação com os vizinhos da outra margem. A Marinha do Brasil já leva fragatas ao Golfo da Guiné nas operações GUINEX desde 2021, com exercícios de abordagem e inspeção ao lado de marinhas africanas e no quadro da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS).

Análise

A volta gradual dos navios a Suez não encerra o assunto. Dois anos de desvio mostraram que o Atlântico Sul é a rota de reserva do comércio entre a Europa e a Ásia, e que essa reserva só funciona se o mar ao largo da África continuar seguro. França e Brasil olham para o mesmo oceano a partir de margens diferentes: a França, pelo Golfo da Guiné e pela Guiana, vizinha do Amapá; o Brasil, pela Amazônia Azul e pelo entorno estratégico que inclui a costa africana.

A resposta na Euronaval foi prudente, como se espera de quem fala por um salão e não por uma Marinha. A pergunta continua aberta: com mais tráfego no Atlântico Sul e menos bases em terra, a Marine nationale vai mudar sua presença na região, e que espaço há para cooperar com a Marinha do Brasil? A Conexão Naval leva a questão à Euronaval, de 3 a 6 de novembro.

Quem é Guillaume Merveilleux du Vignaux

Com 35 anos de serviço na defesa francesa, passou pelo Estado-Maior da Força de Ação Naval (FAN), o comando da esquadra francesa, pelo Estado-Maior Militar Internacional da OTAN, em Bruxelas, e pelo Ministério das Relações Exteriores da França. Piloto de helicóptero da aviação naval, formado pela Escola Naval (turma de 1990), comandou a flotilha 31F, de helicópteros de combate Lynx, e as fragatas La Fayette e Jean de Vienne. Encerrou a carreira ativa como contra-almirante, à frente do Polo de Escolas do Mediterrâneo, em Toulon. Desde 1º de novembro de 2025 é o comissário-geral da Euronaval, organizada pela SOGENA, filial do GICAN, o grupo das indústrias navais francesas.

Fontes: conferência de imprensa da Euronaval, 20/10/2026 (transmissão online); El Estrecho Digital, 14/10/2026 (análise BIMCO/Clarksons Research); The Maritime Executive, 23/02/2026 (mandato da Aspides); The Flying Engineer, 16/10/2026 (expositores); Euronaval e Le Marin (nomeação do comissário-geral); Marine nationale, 22/07/2022 (carreira do almirante); Presse Agence, 21/07/2025; Marine nationale (Corymbe); Defesa Aérea & Naval (GUINEX); audição do almirante Cluzel na Comissão de Defesa da Assembleia Nacional, 14/10/2026; Política Nacional de Defesa.

Colaborou Roque Bagre (Redação IA).
* Fotos: reprodução da transmissão da conferência de imprensa da Euronaval (Rogerio Rebouças / Conexão Naval; imagens tratadas com IA pela Conexão Naval).

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