Por Rogerio Rebouças

A Saab lançou na Euronaval a nova geração do sistema de combate naval 9LV, com arquitetura centrada em dados e atualização contínua. Em entrevista coletiva, Michael Skarped, chefe da unidade de negócios Naval Combat Systems, detalhou a modularidade do sistema e foi cauteloso sobre as fragatas FDI suecas da classe Luleå.

A Saab lançou oficialmente a próxima geração do sistema de combate naval 9LV durante a Euronaval, em 3 de novembro de 2026. Michael Skarped, chefe da unidade de negócios Naval Combat Systems, apresentou a evolução do sistema de combate (Combat System), do sistema de gerenciamento de combate (CMS) e do sistema de direção de tiro com o Ceros, em um desenho pensado para a realidade da guerra naval em múltiplos domínios.

Segundo o comunicado oficial da empresa, o novo 9LV foi construído sobre uma arquitetura centrada em dados (data-centric), com modelo de informação padronizado e segurança cibernética do tipo zero-trust (confiança zero). A ideia é permitir que informação precisa circule de forma segura e rápida entre as unidades, mantendo a consciência situacional e o controle do espaço de batalha. Skarped reforçou a mensagem central: o sistema precisa permitir que as marinhas se adaptem a ameaças em evolução sem comprometer a integridade das funções de combate críticas.

Michael Skarped, chefe da unidade de negócios Naval Combat Systems da Saab, durante entrevista na Euronaval 2026
Michael Skarped, chefe da unidade de negócios Naval Combat Systems da Saab, na Euronaval 2026.*

Adeus às grandes modernizações de meia-vida

Um dos temas mais recorrentes na apresentação foi a mudança de ritmo. Skarped afirmou que os clientes querem abandonar as grandes modernizações de meia-vida e passar a passos menores e mais frequentes. “Velocidade” foi a palavra que ele usou para descrever essa demanda. O objetivo é entregar as capacidades certas “amanhã, não no ano que vem”, com a possibilidade de implantar e atualizar o sistema da fase de desenvolvimento até o uso operacional.

Para isso, a Saab desenvolve, com parceiros estratégicos, uma abordagem modular que enxuga o software e melhora a qualidade. Componentes podem ser reutilizados entre domínios (superfície, anfíbio, submarino e sistemas não tripulados), embora os processos sejam adaptados ao tipo de plataforma. Submarinos seguem um caminho; corvetas e navios maiores, outro; e embarcações menores ou drones tendem a seguir padrões mais próximos do domínio submarino. Alguns componentes, no entanto, permanecem muito semelhantes entre as plataformas.

Funções críticas separadas das aplicações flexíveis

A arquitetura do novo 9LV separa as funções de combate críticas para a missão das aplicações mais flexíveis, nativas em nuvem (cloud-native). Segundo Skarped, essa divisão permite proteger o que é crítico e, ao mesmo tempo, incorporar práticas de outras indústrias de software, especialmente a automotiva e a dos veículos definidos por software. O executivo reconheceu que essa mudança de mentalidade ainda precisa ser construída com os clientes, mas a considerou um passo importante para o setor de defesa.

O sistema foi desenhado também para o ambiente cada vez mais conectado das operações navais: mantém boa conectividade e, ao mesmo tempo, a capacidade de operar com conectividade reduzida. A perspectiva é a de um sistema de sistemas, em múltiplos domínios, alinhado aos objetivos de interoperabilidade e troca de dados táticos da OTAN. O 9LV é escalável, de grandes combatentes multimissão a navios menores, e suporta o conceito de frota híbrida, com meios tripulados e não tripulados.

No estande, um engajamento em alta velocidade

No estande da Saab, o console do novo 9LV foi apresentado em operação. A configuração inclui várias telas, com indicador panorâmico (PPI), listas de ameaças, situação dos sensores e das armas e um quadro geral do navio.

Em uma das demonstrações, o apresentador mostrou um míssil se aproximando: quando o alvo entra na zona vermelha, o engajamento ocorre de forma extremamente rápida. “É extremamente rápido, e assim que o diretor de tiro engaja o míssil…”, explicou, apontando para o alvo rastreado na tela. O sistema também trabalha com corredores de engajamento em forma de “charuto”, que permitem ao diretor de tiro se posicionar e engajar o alvo com precisão.

Apresentador aponta o track de um míssil na tela do console Saab 9LV durante demonstração na Euronaval 2026
Demonstração de engajamento no console do 9LV: a trajetória do míssil e a zona de reação.*
Console Saab do 9LV com tela de status do navio: armas, sensores, EMCON e comunicações
Quadro de situação do navio no console Saab: armas, sensores, controle de emissões (EMCON) e comunicações.*

Visby, Austrália e as FDI Luleå

Na sessão de perguntas, os jornalistas buscaram aplicações concretas. Sobre a modernização de meia-vida das corvetas suecas classe Visby, Skarped respondeu que a decisão cabe aos clientes, mas que a abordagem modular está sendo desenvolvida justamente para enxugar o software e reutilizar componentes entre plataformas.

Quanto à Austrália, ele confirmou que há pessoas da organização local trabalhando na nova geração, ligadas às linhas funcionais da empresa. “O primeiro passo concreto na Austrália ainda não foi decidido”, afirmou.

A pergunta mais direta foi sobre a possibilidade de o novo sistema de combate equipar as fragatas FDI suecas da classe Luleå. Skarped foi cauteloso: “Nas suecas, ainda estamos em discussão. Podemos voltar com mais detalhes quando o contrato estiver totalmente assinado e firmado.” Publicamente, já se sabe quais sistemas a Saab fornece para esses navios (o míssil antinavio RBS 15, o torpedo leve Torped 47, o radar Giraffe 1X e as estações de armas Trackfire), mas o CMS principal das Luleå continua sendo o SETIS, francês, da Naval Group. Os canhões de 57 mm e 40 mm das Luleå são da BAE Systems Bofors, e não da Saab. A Conexão Naval comparou as três versões da FDI aqui.

A mensagem oficial

A fala de Skarped repete a citação do comunicado: “Ao permitir que as forças navais se adaptem a ameaças em evolução enquanto protegem a integridade das funções de combate centrais, o 9LV permanece adaptável e, portanto, relevante contra ameaças emergentes ao longo da vida operacional do navio.” O lançamento posiciona a nova geração do 9LV como resposta à demanda por sistemas mais ágeis, atualizáveis e integrados, sem abrir mão da robustez das funções de combate críticas.

Fontes: comunicado da Saab, 03/11/2026; entrevista coletiva de Michael Skarped e demonstração no estande da Saab na Euronaval 2026, acompanhadas pela Conexão Naval.

Colaborou Chatel Cherne (Redação IA).
* Fotos: Rogerio Rebouças / Conexão Naval.

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