Por Rogerio Rebouças, de Paris
A Naval Group revelou o navio do teaser. Na abertura da Euronaval 2026, nesta terça-feira, 3 de novembro, o estande da empresa mostrou a maquete do SCX26, um navio conceito de 8.000 toneladas. A Conexão Naval esteve lá e traz as fotos em primeira mão.

É um navio híbrido, na medida em que leva vários drones, tem um canhão eletromagnético na frente, 32 células para mísseis na frente também, e mais pelo menos 32 atrás. E com o sistema quad, de quatro mísseis por célula, essa capacidade pode ser multiplicada por quatro.
É um conceito ainda. No comunicado de imprensa divulgado na véspera da feira, a Naval Group apresenta o SCX26 como um projeto de pesquisa, “um conceito de navio ainda muito teórico, pensado para o combate naval do futuro”, que reúne respostas a novas exigências operacionais, lições dos conflitos recentes e tecnologias de médio e longo prazo. A ideia é misturar soluções já comprovadas com rupturas tecnológicas que devem ficar disponíveis em breve.
O navio fecha a série de teasers que a empresa soltou antes da feira. Primeiro veio a imagem enigmática de um navio de combate, depois a proa com ao menos 32 células de lançamento vertical. Agora, a maquete inteira.
Canhão eletromagnético e 64 células

Na proa, o canhão eletromagnético, o chamado railgun, que lança o projétil com energia elétrica em vez de pólvora, a velocidade hipersônica. Logo atrás dele, o bloco de 32 células que a Naval Group já tinha deixado ver no teaser. Na parte de trás do navio ficam pelo menos mais 32.
O canhão eletromagnético não é ficção na Europa. A Naval Group participa do consórcio THEMA, financiado pelo Fundo Europeu de Defesa e liderado pela KNDS (Nexter), com 14 parceiros de nove países, entre eles a Diehl Defence e o instituto franco-alemão de Saint-Louis (ISL). A meta declarada é testar um canhão desse tipo em um campo de tiro até 2028.
Já o “quad” é o acondicionamento de quatro mísseis em uma mesma célula. A conta de multiplicar por quatro vale para mísseis compactos de defesa antiaérea de curto e médio alcance, como já se faz com o ESSM no lançador americano Mk 41. Um míssil grande, como o Aster 30, continua ocupando a célula inteira. Na prática, o número de mísseis a bordo vai depender da mistura escolhida.
Radares e drones
Nos mastros, radares AESA como os que se usam hoje e, no quadrado abaixo, um radar maior, para longas distâncias.

Na maquete aparecem dois drones, um de superfície e outro submarino. O de superfície, segundo a placa da maquete, é o Seaquest S, aqui em versão armada, com um módulo de foguetes. É o drone de cerca de nove metros, finalista do programa DANAE da Marinha francesa, que a Naval Group já vinha apresentando e que, segundo a Naval News, recebeu o módulo antidrone Rampart, de 15 tubos, numa demonstração na véspera da feira. O Seaquest maior e novo é o Seaquest M, que aparece no telão ao fundo do estande. No convoo, além do helicóptero, há drones aéreos de asa rotativa.
Do Seaquest S ao Seaquest M
Além do Seaquest S, a Naval Group desenvolve um drone de superfície bem maior, o Seaquest M. A ficha técnica exibida no telão do estande dá 45 metros de comprimento, 10 metros de boca, 3,5 metros de calado, 550 toneladas a plena carga, 90 toneladas de combustível, propulsão de 3,5 MW e velocidade máxima de 22 nós. É mais do que os 37 metros citados pela Naval News antes da feira. É um MUSV (drone de superfície de médio porte) com casco de aço, derivado de um projeto civil para poder ser construído em diferentes estaleiros. A meta é cumprir missões de dez dias sem intervenção humana, sozinho ou como “ala leal” de navios tripulados. Foi concebido sem tripulação, mas a empresa estuda uma versão com tripulação opcional.
O sistema de combate é todo em contêineres, com áreas para módulos de missão e armas, entre elas o lançador Rampart. O mastro de sensores vem da experiência das corvetas Gowind e das fragatas FDI. As provas de mar das primeiras capacidades devem começar nos próximos meses. Não há cliente anunciado: a Marine nationale põe drones de médio porte armados como “incrementos posteriores”.
O que diz a Naval Group

Aymeric Moullart de Torcy, responsável de marketing de drones e cibernética da Naval Group, recebeu a Conexão Naval no estande. Segundo ele, o SCX26 é um navio híbrido, preparado para as guerras do futuro: a partir dele se controlam vários drones ao mesmo tempo, de superfície e submarinos.
Ele confirmou que o canhão eletromagnético já está em desenvolvimento na Europa, com vários parceiros, e resumiu o SCX26 como um conceito novo e moderno, pensado para a guerra que se prepara hoje, com o uso de drones.

Análise: vitrine, não programa
O SCX26 não é um navio encomendado nem um programa da Marinha francesa. É a vitrine da Naval Group para dizer como enxerga o combate naval dos anos 2040: mais mísseis por navio, defesa contra saturação de drones e mísseis, sensores de longo alcance e um navio-mãe que estende o seu alcance com drones aéreos, de superfície e submarinos. É a mesma lógica da “frota híbrida” que domina o discurso desta Euronaval.
Algumas peças ainda estão longe do mar. O canhão eletromagnético é a mais ousada: a Marinha dos Estados Unidos encerrou o seu programa de railgun em 2021, depois de anos de testes, e o projeto europeu ainda mira um tiro em campo de provas em 2028. Mas os conceitos da Naval Group costumam deixar herança: o que hoje aparece numa maquete pode reaparecer, em versão mais modesta, no próximo navio que a Marine nationale vier a encomendar, inclusive no sucessor das fragatas de defesa aérea classe Horizon, ainda sem definição.
*Fotos: Rogerio Rebouças / Conexão Naval
Colaborou Claudio Sardinha (Redação IA)




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