Por Rogerio Rebouças
A Saab apresentou nesta segunda-feira, 2 de novembro, a CB90 CX, versão maior da sua conhecida lancha de combate, que pode operar com ou sem tripulação e ganha três configurações: vigilância com o radar Giraffe 1X, ataque antinavio e defesa antiaérea de curto alcance. A Suécia é o primeiro cliente.
A Saab anunciou a Combat Boat 90 Capability X (CB90 CX), nova geração da lancha de combate CB90, a um dia da abertura da Euronaval, em Paris. Segundo a empresa sueca, a embarcação é maior que a CB90 atual, tem mais capacidade de carga, sistemas de bordo totalmente atualizados e pode operar em mar mais agitado. Foi concebida para operações com tripulação opcional, por meio do Autonomous Ocean Core, o sistema de autonomia da Saab.
Três configurações iniciais foram anunciadas. A de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR, na sigla em inglês) usa o radar Giraffe 1X, da Saab, para dar consciência situacional em vários domínios. A antinavio oferece capacidade de ataque além do horizonte contra navios de superfície. A de defesa antiaérea de curto alcance (SHORAD) usa um canhão automático antiaéreo, numa época em que, nas palavras da empresa, os sistemas aéreos não tripulados proliferam. A ideia é que as três operem em conjunto, complementando-se, ou dentro de uma força conjunta mais ampla.

“O futuro das operações navais não está apenas em ter mais plataformas, mas em distribuir mais capacidade de combate por toda a força”, afirmou Anders Hellman, chefe da unidade de negócios Docksta, da Saab, que fabrica as lanchas. “A CB90 CX reflete essa evolução, indo além do transporte de tropas para conectar sensores e armas e entregar capacidade de combate diretamente a partir da embarcação, com ou sem tripulação.”
A CB90 CX já está em produção para a Suécia, cliente de lançamento, e vai coexistir com a CB90 NG, menor. Segundo a Saab, a CB90 serve hoje em nove marinhas, na Europa, no Oriente Médio, na África, na Ásia-Pacífico e nas Américas.

Mais um drone naval? Não exatamente
A CB90 CX não é um drone de superfície puro, como os que a França escolheu no programa DANAE ou o SUPPRESSOR brasileiro, de que a Conexão Naval tratou em outubro. É uma lancha de tripulação opcional: pode sair com marinheiros a bordo, como sempre, ou operar sem ninguém. A diferença é mais do que semântica. Uma plataforma desenhada para não ter tripulação pode ser menor, mais barata e descartável; uma de tripulação opcional mantém o espaço, a proteção e os sistemas de quem embarca, e por isso custa mais, mas pode ser usada nas missões em que a presença humana ainda é exigida, ou desejada, como a abordagem, a interdição ou a decisão de abrir fogo.
É também uma aposta comercial prudente. As marinhas que já confiam na CB90 podem ir para a autonomia aos poucos, sem trocar de casco nem de fornecedor.
De transporte de tropa a lançadora de mísseis
A CB90 nasceu nos anos 1990 para o arquipélago de Estocolmo: uma lancha de alumínio de cerca de 16 metros, propulsada a jato d’água, capaz de passar dos 40 nós e de desembarcar até 18 fuzileiros navais numa praia ou num rochedo. A mudança agora é de função. Em vez de levar quem combate, a lancha passa a combater: radar, mísseis e canhão a bordo, numa lógica de “força distribuída”, em que vários meios pequenos e dispersos são mais difíceis de neutralizar do que um navio grande.
É a lição do Mar Negro, onde a Ucrânia, aliás operadora da CB90, recebida da Suécia, mostrou o que embarcações pequenas, numerosas e armadas podem fazer contra uma frota convencional. A Suécia, que tem uma das costas mais recortadas da Europa e o Báltico como vizinho, é o cliente natural dessa ideia.
O comunicado ficou nas linhas gerais, mas os detalhes apareceram ao longo do dia em publicações especializadas que ouviram a Saab. Segundo a The War Zone, a CB90 CX tem cerca de 18 metros (59 pés), contra 16,6 metros da CB90 NG, dois motores de 1.100 cavalos, velocidade acima de 40 nós e autonomia superior a 300 milhas náuticas, e leva até dez pessoas quando tripulada. A versão antiaérea usa o canhão SeaSnake 30, de 30 mm, da alemã Rheinmetall, telecomandado, contra drones, munições remotas e helicópteros que voam baixo. É o mesmo sistema das fragatas classe Tamandaré, da Marinha do Brasil, cliente de lançamento do SeaSnake 30, que levam um reparo cada. Segundo a European Security & Defence, o radar dessa versão é o Spexer 2000 3D, da Hensoldt. As versões de vigilância e antinavio levam, para autodefesa, a estação de armas Trackfire, da Saab, com metralhadora de 12,7 mm ou canhão de 30 mm.
A imagem da versão antinavio mostra mísseis Marte ER, da MBDA, com alcance superior a 100 km, que permitem atacar além do horizonte do radar da própria lancha, com dados de alvo vindos de outros meios. A Saab confirmou à The War Zone, porém, que a Suécia vai armar suas lanchas com outro míssil, que não foi revelado. A escolha faz sentido: o Marte ER é um míssil leve, concebido para helicópteros e embarcações pequenas, bem diferente do RBS15, da própria Saab, que arma as corvetas suecas.
O Giraffe 1X, de novo
O radar da versão de vigilância é um velho conhecido dos leitores. O Giraffe 1X, radar tridimensional compacto em banda X da Saab, com alcance de 100 km, segundo a Saab, aparece na lista de sistemas suecos das futuras fragatas classe Luleå, do tipo FDI da Naval Group, divulgada pela FMV, a agência sueca de aquisição de material de defesa, como contamos na matéria sobre o Sea Giraffe AMB D. A família Giraffe, que vai do radar de lancha ao de fragata, e o sistema de vigilância submarina Ocean Barrier mostram que a Saab chega à Euronaval com uma oferta completa para a defesa costeira, do fundo do mar ao céu.
A CB90 pelo mundo, e o Brasil
Além da Suécia, a CB90 é usada, entre outras, pelas marinhas da Noruega, do México, da Malásia e da Ucrânia, pela Guarda Costeira grega e, em pequeno número, pela Marinha dos Estados Unidos, que a chama de Riverine Command Boat. A Suécia encomendou dez novas lanchas em junho de 2024, em parte para repor as doadas à Ucrânia, e outras 22 em 2025, por cerca de 900 milhões de coroas suecas (cerca de 82 milhões de euros, ou R$ 490 milhões). Em julho de 2025, duas lanchas suecas emprestadas à Marine nationale chegaram à base naval de Brest para avaliação. Segundo a Zone Militaire, a experiência pode compensar em parte o aparente cancelamento do programa francês de vedetas de fuzileiros navais (VFM).
Não há registro de CB90 na Marinha do Brasil. Segundo o site Defesa Aérea & Naval, o Exército Brasileiro testou a lancha em 2004, mas não fez encomenda. Na América do Sul, o Peru estudou a construção local da embarcação.
A Conexão Naval visita o estande da Saab na Euronaval em 4 de novembro e vai levar as perguntas que seguem sem resposta: o míssil escolhido pela Suécia, o número de CB90 CX encomendadas e o grau real de autonomia da lancha.
Fontes: Saab, 02/11/2026; The War Zone, 02/11/2026; European Security & Defence, 11/2026; Zone Militaire, 02/11/2026; Naval News; Armada International, 23/07/2025; Defesa Aérea & Naval.
Colaborou Claudio Sardinha (Redação IA).
* Imagens: Saab (geradas com IA). Imagem de capa: recorte da imagem das três configurações.





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