Por Rogerio Rebouças
A DGA prevê contratar a MBDA para desenvolver e fornecer o novo padrão, com alcance superior a 1.000 quilômetros e entregas a partir de 2030. A proposta apresentada à Suécia sinaliza uma mudança importante na política de exportação.
Uma evolução para a capacidade de ataque em profundidade
A Direção-Geral de Armamento da França (DGA) anunciou, durante a Euronaval 2026, a próxima assinatura de um contrato com a MBDA para o novo padrão do Missile de Croisière Naval (míssil de cruzeiro naval, MdCN), denominado MdCN Mk2. De acordo com o comunicado divulgado em 6 de novembro, as entregas deverão começar em 2030.

O novo padrão foi concebido para reforçar a capacidade francesa de ataque em profundidade contra alvos em terra. O MdCN Mk2 terá alcance superior a 1.000 quilômetros e incorporará melhorias de furtividade, maior resistência ao bloqueio dos sinais de navegação por satélite (GNSS), maior capacidade de atravessar defesas antiaéreas e aumento da letalidade.
A DGA também destaca a melhoria da preparação das missões, com a incorporação de módulos de inteligência artificial desenvolvidos pelas equipes da MBDA. O comunicado, porém, não detalha quais funções serão executadas por esses módulos nem esclarece se sua atuação ficará restrita ao planejamento da missão.

O MdCN Mk2 será empregado a partir das fragatas multimissão FREMM e dos submarinos nucleares de ataque (SNA) da classe Suffren. Lançado de uma fragata ou de um submarino, o míssil permitirá atingir alvos estratégicos em terra, complementando a capacidade de ataque aéreo já proporcionada pelo SCALP-EG.
Uma família comum, naval e terrestre
A MBDA apresenta o desenvolvimento sob a designação NCM/LCM Mk2: Naval Cruise Missile (míssil de cruzeiro naval) e Land Cruise Missile (míssil de cruzeiro terrestre). Na nomenclatura francesa, a versão naval é o MdCN; a versão terrestre é o LCM. A família foi apresentada pela MBDA em junho de 2026, na Eurosatory, como uma solução de ataque em profundidade com alcance superior a 1.000 quilômetros.

A existência de uma família comum não significa, por si só, que as duas configurações sejam idênticas em todos os seus componentes ou procedimentos de emprego. A versão naval destina-se a plataformas de superfície e submarinas, enquanto a terrestre será lançada por um sistema móvel.
A proposta à Suécia e a perspectiva de exportação
A possibilidade de exportação ganhou visibilidade com a proposta francesa apresentada à Suécia no contexto da escolha das fragatas FDI para o programa Luleå. Segundo a publicação especializada Mer et Marine, de 1º de setembro de 2026, Paris ofereceu a nova família NCM/LCM Mk2 a Estocolmo, tanto na versão naval quanto na terrestre.
A oferta, entretanto, não significa que o MdCN já esteja integrado à configuração das quatro futuras fragatas suecas nem que exista uma decisão de compra. A própria reportagem ressalta que a capacidade de ataque em profundidade não fazia parte, naquele momento, da configuração definida para os navios.

Durante a Euronaval 2026, em conversa informal no estande do Ministério das Forças Armadas da França, um representante apresentado pela assessoria de imprensa comentou que a exportação do sistema para países parceiros é hoje uma possibilidade concreta. A informação reforça o sinal dado pela oferta à Suécia, mas não foi apresentada como declaração oficial, nem acompanhada de uma decisão pública que estabeleça uma política geral de exportação.
O movimento representa uma mudança relevante em relação ao histórico do MdCN, até então associado exclusivamente à Marinha francesa. A eventual ampliação da base de usuários poderá ter consequências industriais e operacionais, mas cada possível venda continuará sujeita às decisões governamentais e aos procedimentos franceses de controle de exportações.
E o Brasil? Os Riachuelo e o MdCN Mk2
O Brasil também entrou na conversa. Depois de comentarmos a oferta à Suécia, a pessoa designada pela assessoria de imprensa para falar especificamente do míssil afirmou, também de forma oficiosa, que, se houvesse interesse brasileiro, o MdCN Mk2 poderia ser adquirido. A hipótese tem lógica técnica: na Marinha francesa, o míssil é lançado dos tubos de torpedo de 533 mm dos submarinos da classe Suffren, o mesmo calibre dos tubos dos submarinos da classe Riachuelo, derivados do Scorpène da Naval Group. A integração também tende a ser menos problemática do que parece: o sistema de combate SUBTICS dos Riachuelo, da Naval Group, tem a mesma base, embora não seja igual, do sistema dos SNA franceses. Ainda assim, o custo e, sobretudo, a decisão política de dar à Marinha do Brasil uma capacidade de ataque a alvos em terra a mais de 1.000 quilômetros estão longe de ser triviais. Uma eventual venda também passaria pelas regras do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), do qual França e Brasil fazem parte. A Conexão Naval não tem conhecimento de interesse formal da Marinha do Brasil.
Uma capacidade estratégica em evolução
Com o Mk2, a França pretende manter e ampliar uma capacidade de ataque de longo alcance lançada a partir de meios navais, agora com maior alcance, sobrevivência e resistência a ambientes eletromagnéticos contestados. A combinação entre plataformas de superfície e submarinas oferece flexibilidade de emprego e permite complementar a aviação de combate na condução de operações contra alvos de alto valor estratégico.
O próximo marco será a formalização do contrato anunciado pela DGA e a divulgação de informações mais detalhadas pela MBDA sobre as modificações técnicas do Mk2, especialmente a propulsão, a navegação, o guiamento terminal e as funções associadas à inteligência artificial.
Fontes: comunicado do Ministério das Forças Armadas da França (DGA), 6 de novembro de 2026; MBDA (apresentação do NCM/LCM Mk2 na Eurosatory, junho de 2026); Mer et Marine (1º de setembro de 2026); Palácio do Eliseu (visita do presidente Emmanuel Macron à Suécia, 31 de agosto de 2026); estande do Ministério das Forças Armadas da França na Euronaval 2026, visitado pela Conexão Naval.
Colaborou Chatel Cherne (Redação IA)
* Fotos: Rogerio Rebouças / Conexão Naval, na Euronaval 2026.





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