Por Rogerio Rebouças
Canhões, sensores e mísseis em configurações transportáveis podem reforçar a proteção de petroleiros e cargueiros em rotas de alto risco, sem exigir a conversão permanente dessas embarcações em navios de guerra.
A segurança da navegação comercial voltou ao centro das atenções da indústria de defesa naval. Em corredores marítimos de grande importância econômica e estratégica, como o estreito de Ormuz e Bab el-Mandeb, petroleiros, navios de transporte de gás e cargueiros podem ficar expostos a drones, embarcações rápidas, veículos não tripulados e ataques lançados a partir da costa.
Na Euronaval 2026, a BAE Systems e a turca ASELSAN apresentaram soluções que exploram um conceito de interesse para armadores e operadores: acrescentar capacidade de autodefesa a navios civis por meio de equipamentos modulares, instaláveis conforme a missão e potencialmente removíveis depois da passagem por uma área de maior risco.
BAE Systems: diferentes configurações em torno do Bofors de 40 mm

A BAE Systems apresentou uma família de quatro configurações baseadas no canhão naval Bofors de 40 mm Mk4, associadas à munição programável 3P. A proposta não se limita a oferecer um mesmo canhão em quatro suportes: as configurações variam no nível de integração de sensores, direção de tiro e compatibilidade com diferentes plataformas.
- Bofors 40 Mk4: sistema naval automático e multifunção, com controle remoto e possibilidade de controle local de reserva.
- Sea Tridon: configuração naval com sistema eletro-óptico integrado para direção de tiro.
- Sea Tridon C: versão conteinerizada, concebida para instalação em plataformas compatíveis e emprego temporário, inclusive em navios comerciais.
- Sea Trinity: configuração de defesa aproximada com radar integrado e arquitetura de controle de tiro mais completa.
O elemento comum de maior interesse é a munição Bofors 3P. Seu espoletamento programável permite selecionar, antes do disparo, um dos seis modos de funcionamento conforme o alvo e o efeito desejado. A BAE Systems informa que cada espoleta é programada individualmente pelo sistema de programação, que recebe dados do computador de controle de tiro. Portanto, não é o projétil que identifica autonomamente o alvo: a seleção do modo é feita pelo sistema de armas antes do tiro.

A munição 3P combina pré-fragmentação e espoleta programável de proximidade. Entre os modos divulgados pela fabricante estão duas configurações de proximidade para defesa aérea, uma delas com prioridade de impacto; modo de tempo para alvos de superfície pequenos e manobráveis ou posições abrigadas; modo de impacto; modo perfurante para alvos blindados; e modo de proximidade padrão. Essa versatilidade pode reduzir a necessidade de alternar entre diferentes famílias de munição para responder a ameaças de natureza distinta.
ASELSAN: GÖKDENİZ e GÖKSUR em módulos independentes

A ASELSAN apresentou uma arquitetura que combina defesa aproximada por canhões e defesa de ponto por mísseis. Em comunicado oficial distribuído em Paris em 3 de novembro de 2026, a empresa informou que as configurações transportáveis de GÖKDENİZ e GÖKSUR VLS foram concebidas para levar capacidades de defesa aérea a embarcações civis e outros ativos críticos.
GÖKDENİZ: defesa aproximada conteinerizada
A nova configuração do GÖKDENİZ é descrita pela fabricante como uma solução autocontida, derivada da versão naval do sistema KORKUT. O módulo reúne sua própria alimentação elétrica e um ambiente de operação para o operador, podendo ser instalado rapidamente em embarcações civis e removido para ser empregado em outra plataforma. A ASELSAN cita expressamente navios comerciais e petroleiros que atravessam vias marítimas estratégicas e desafiadoras.
GÖKSUR VLS: defesa de ponto por mísseis
O GÖKSUR VLS foi apresentado em uma configuração modular composta por um contêiner de centro de controle de tiro (Fire Control Center, FCC) e outro de lançamento. Segundo o comunicado, o sistema integra sensores, lançadores e geradores próprios, permitindo implantação independente da instalação permanente no navio hospedeiro. O material recebido não detalha a quantidade de mísseis nem o envelope de emprego da configuração conteinerizada mostrada na feira.
SMASH 30: outra estação de armas, outra função

A ASELSAN também expôs o SMASH 30, sistema de armas navais estabilizado e remotamente controlado, equipado com canhão de 30 mm. O comunicado da empresa destaca detecção, classificação e acompanhamento de alvos assistidos por inteligência artificial, sensores eletro-ópticos e munição programável ATOM 30. O sistema foi concebido para enfrentar ameaças assimétricas de superfície e ameaças aéreas emergentes.
O SMASH 30 deve ser distinguido dos módulos conteinerizados GÖKDENİZ e GÖKSUR. O comunicado o apresenta como uma estação de armas remotamente controlada, mas não o identifica como parte da arquitetura conteinerizada destinada à instalação temporária em navios mercantes. Também não afirmamos que o conjunto modular completo seja operado por apenas uma pessoa: esse detalhe não foi confirmado na documentação oficial recebida.
A modularidade não elimina a integração
A possibilidade de instalar e retirar um módulo não significa que qualquer navio possa recebê-lo sem estudos prévios. É necessário avaliar resistência e capacidade de carga do convés, estabilidade, campos de tiro, segurança da munição, alimentação elétrica, comunicações, sensores, treinamento e procedimentos de comando. A integração também precisa considerar a convivência do armamento com as operações comerciais e com a tripulação.
Há ainda questões jurídicas e operacionais: autorização para embarcar armamento, declaração às autoridades portuárias, regras de emprego, responsabilidade pelo comando e coordenação com forças navais e autoridades marítimas. A solução técnica não substitui a escolta naval nem as medidas de segurança da navegação.
Uma nova camada de proteção para rotas críticas
As propostas da BAE Systems e da ASELSAN partem de uma necessidade comum, mas seguem caminhos diferentes. A BAE oferece uma família baseada no Bofors de 40 mm, incluindo a configuração conteinerizada Sea Tridon C e a defesa aproximada Sea Trinity. A ASELSAN combina o módulo de canhões GÖKDENİZ com o sistema de mísseis GÖKSUR VLS, enquanto o SMASH 30 representa uma estação de armas separada.
Para os operadores de navios mercantes, a possibilidade de reforçar temporariamente a proteção de embarcações selecionadas pode tornar-se uma ferramenta adicional de gestão de risco em corredores como Ormuz e Bab el-Mandeb. A adoção, porém, dependerá de integração técnica, autorização regulatória e regras claras de comando e emprego.
Leia também: Marinha incorpora o Mangaratiba e moderniza a Classe Macaé, com o Bofors 40Mk4 nos navios-patrulha da Marinha do Brasil.
Fontes: ASELSAN, comunicado oficial ASELSAN Debuts Deployable Naval Solutions at EURONAVAL 2026 (A ASELSAN estreia soluções navais transportáveis na Euronaval 2026), 3 nov. 2026, recebido da assessoria de imprensa; BAE Systems, munição 3P e Bofors 40 Mk4; Janes, Euronaval 2026: BAE Systems unveils four configurations of scalable 40 mm naval gun.
Colaborou Chatel Cherne (Redação IA).
*Fotos: Rogerio Rebouças / Conexão Naval, na Euronaval 2026.





Deixe um comentário